Riga: uma capital ocidental no Leste – Cidade Velha (Vecrīgā)

Muita gente me pergunta de onde surgiu o meu interesse em conhecer a Letônia, mais especificamente a sua capital, Riga. Pois bem, acho que o primórdio de tudo veio nos tempos de infância, quando minha mãe me presenteou com um atlas infantil chamado “Le Livre de Tous les Pays”, que, de forma obviamente sucinta mas com belas ilustrações, trazia um apanhado com diversas informações sobre os países do mundo. Nesta mesma época, por volta dos 10 anos, eu costumava jogar com amigos um jogo de tabuleiro chamado “Voyage en Europe”, em que os participantes eram obrigados a percorrer determinadas cidades, quem conseguisse completar o “percurso” mais rapidamente era o vencedor (uma versão retrô do famoso “Where in the world is Carmen Sandiego?”).

"Le Livre de Tous les Pays", atlas que ganhei na infância.

“Le Livre de Tous les Pays”, atlas que ganhei na infância.

Tanto o livro, quanto o jogo (que eu não tenho, ele pertencia aos amigos de infância), apresentavam, no local onde as cidades estão situadas no mapa, e, no caso do jogo, nas cartas representativas das cidades, pequenas ilustrações com o(s) ponto(s) de interesse principais na localidade. Em Riga, o desenho representava a Igreja de São Pedro, e aos meus olhos infantis, parecia ser linda, totalmente diferente de todas as igrejas que conheci.

Jogo "Voyage en Europe",  imagem tirada do site http://www.priceminister.com

Jogo “Voyage en Europe”, imagem tirada do site http://www.priceminister.com

Já adulto, fiquei sabendo que Riga era a cidade natal do bailarino Mikhail Baryshnikov (apesar de ele nunca mais ter posto os pés na cidade, após sua defecção e dizer abertamente que não tem o menor interesse em retornar). Soube também que, quando os filmes da época soviética pretendiam retratar uma cidade da Europa ocidental, a capital letã era utilizada como cenário. Todos esses fatores foram primordiais para despertar o meu interesse pelo local.

Um dado que acho interessante mencionar é que a região em que se encontra a Letônia passou por diversas mãos durante a História. Nesse contexto, a maior parte do território da Letônia e a totalidade da Estônia, durante boa parte da Alta Idade Média era habitado por povos de origem báltica e fínica (daí a proximidade dos estonianos com os finlandeses), na chamada Livônia. Ainda na época medieval, a Letônia foi ocupada pelos Cavaleiros da Ordem Teutônica, tornando Riga uma das cidades pertencentes à Liga Hanseática (junto com Kalingrado, Gdansk, Bremen…), e após foi ocupada pelos Poloneses. Já, na Era Moderna, o território foi também disputado pelos suecos e pelos russos. Nessa época, Riga tornou-se capital da Livônia Sueca e era uma cidade mais populosa do que Estocolmo!

Durante o Reino do Czar Pedro I, o Grande, no início do século XVIII, iniciou-se um período de expansão do Império Russo na direção do Báltico que culminou com a conquista de Riga. A partir desta época, foi implementada uma política de russificação do território e de desenvolvimento da cidade. É importante esclarecer que, pelo menos até a Revolução Bolchevique, Riga era terceira cidade em população da Rússia, atrás apenas de Moscou e de São Petersburgo.

Esta brevíssima sinopse nos é útil para concluirmos que: (a) boa parte da arquitetura medieval que se vê na Cidade Velha é de origem germânica (lembrando que, na Idade Média, grande parcela das construções era feita de madeira e não resistiu ao tempo, o que explica não haver grandes exemplos das demais ocupações); (b) cerca de 40% da população de Riga é composta por cidadãos de etnia russa, sendo uma cidade bilingue; e (c) explica-se bastante o sentimento de patriotismo acentuado do povo letão.

Passando à cidade em si, como mencionei, o hotel em que ficamos hospedados ficava no lado Leste da Cidade Velha, próximo aos dois monumentos emblemáticos de Riga: a Casa dos Cabeças Negras (Melngalvju nams) e a Igreja de São Pedro.

Em primeiro lugar – e nesse ponto posso ser alvo de crítica das pessoas -, sinto informar que a praça onde fica a Prefeitura e a Casa dos Cabeças Negras me decepcionou. Sim, eu tinha total noção de que aquela parte da cidade havia sido completamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial, e sim eu sabia também que tanto a Prefeitura, como a Casa dos Cabeças Negras haviam sido reconstruídos após a queda da URSS, já na década de 90 / anos 2000. Mas, ao contrário do que ocorreu na Rússia, em que as reconstruções foram realizadas de forma minuciosa, em Riga, pareceu que os edifícios ficaram com cara de reconstrução, meio cenográfico. Fora que a praça é bem pequena e, nas fotos que você encontra espalhadas na internet, ela parece ser enorme… Não é! Repito, é bonita, mas é pequena e não é o ponto alto da Cidade Velha (Vecriga).

Casas na Ratslaukums (praça da Prefeitura)

Casas na Ratslaukums (praça da Prefeitura)

 

Ratlaukums. Ao fundo, torre da Basílica de São Pedro, em Riga.

Ratlaukums. Ao fundo, torre da Igreja de São Pedro, em Riga.

Observando as fotos acima, os telhados das casas e de algumas construções não aparentam um tanto fake, na opinião de vocês? Tenho sempre um certo receio em reformas de prédios muito antigos, principalmente naquelas que impliquem em reconstruções, pois, se não tomarmos cuidado, pode passar um ar meio Las Vegas ou, pior, meio Shopping Barra World, no Rio de Janeiro. O mundo está cheio de exemplos: a cidade de Carcassonne, na França (reformada por Viollet-le-Duc), a praça Gendarmenmarkt, em Berlim…

De lá, fomos visitar a Igreja de São Pedro, a igreja mais antiga da cidade, lindíssima por fora, sendo que a sua torre foi destruída e reconstruída diversas vezes ao longo dos anos. Dentro do edifício, há uma exposição de fotos mostrando o incêndio da igreja durante a Segunda Guerra, que destruiu por completo todo o telhado, é chocante! Consultei aqui a minha biblioteca de fotos e achei incrível não termos tirado nenhuma da entrada da igreja, que é linda! Acho que ficamos tão impressionados com a magnitude da construção, que esquecemos as nossas máquinas… O interior da igreja é bastante simples, seja porque sofreu diversos incêndios, seja por ser de confissão luterana, todo branco com alguns detalhes em tijolos vermelhos.  O que vale à pena na visita da igreja é a subida à sua torre para apreciar a vista da cidade: vale muito à pena pagar os 7 € do ingresso. O trajeto é feito a partir do primeiro andar da igreja por meio de um elevador (uma escadaria moderna, larga, com corrimão, dá acesso ao lobby do elevador). O meu conselho pessoal é que levem um casaco bastante reforçado; apesar do sol, estava fazendo um frio de rachar em Riga, a temperatura não devia passar de 5ºC, sendo que, com o vento, a sensação térmica devia ser bem abaixo de 0ºC e, lá no alto, menos ainda. Por sinal, não se assustem, a torre foi construída basicamente com uma estrutura de ferro, os ventos nas alturas são surpreendentemente fortes, então a estrutura balança, mas, pelo menos até agora, não caiu… Deixo que as imagens falem por si:

 

Vista da Igreja de São Pedro para o edifício da Academia de Ciências, Riga

Vista da Igreja de São Pedro para o edifício da Academia de Ciências, Riga

Torre da Pólvora vista da igreja de São Pedro, Riga

Torre da Pólvora vista da igreja de São Pedro, Riga

Vista da torre da igreja de São Pedro para a Catedral de São Jacó, Riga

Vista da torre da igreja de São Pedro para a Catedral de São Jacó, Riga

Vista da torre da igreja de São Pedro para a cidade Velha (Vecriga), Riga

Vista da torre da igreja de São Pedro para a cidade Velha (Vecriga), Riga

Mas o que eu considero importante e legal mesmo para fazer em Riga é flanar, se perder pelas ruazinhas medievais e se deleitar com o seu visual em que se misturam harmoniosamente prédios medievais com outros de estilo art nouveau…

Prédio art nouveau localizado na Jauniela 25/29, Cidade Velha, Riga

Prédio art nouveau localizado na Jauniela 25/29, Cidade Velha, Riga

Torre da Pólvora, Cidade Velha, Riga

Torre da Pólvora, Cidade Velha, Riga

Praça Livônia (Livu Laukums), Cidade Velha, Riga

Praça Livônia (Livu Laukums), Cidade Velha, Riga

Praça Livônia (Livu Laukums) Cidade Velha, Riga

Praça Livônia (Livu Laukums) Cidade Velha, Riga

"Cat House" (Kaku nams), Cidade Velha, Riga

“Cat House” (Kaku nams), art nouveau, Cidade Velha, Riga

"Cat House" (Kaku nams), art nouveau, Cidade Velha, Riga

“Cat House” (Kaku nams), detalhe, art nouveau, Cidade Velha, Riga

Riga, Cidade Velha, ao fundo um dos "Três Irmãos" e a torre da Catedral de São Jacó

Riga, Cidade Velha, ao fundo um dos “Três Irmãos” e a torre da Catedral de São Jacó

Observando as imagens acima, principalmente aquelas que retratam a Praça Livônia, é possível percebermos a interação harmoniosa entre os estilos art nouveau, medieval e dos séculos XVIII e XIX, situação bastante usual na bela e agradável capital letã.

Nesse ponto, se chega à Praça da Catedral (Doma Laukums), onde, obviamente se encontra erigida a Catedral de São Jacó. Esta igreja, construída na Idade Média, mas cuja torre data do século XVIII, é famosa não apenas pelo esplendor arquitetônico de sua fachada, mas também por possuir um dos órgãos de igreja mais famosos da Europa (durante muito tempo foi o maior órgão do mundo), além de ser a maior igreja do Báltico. Antes de pagar pelo ingresso para conhecer o templo, sugiro que verifiquem na bilheteria se haverá concerto para o dia da visitação,  vale mais à pena conhecer a igreja e aproveitar o concerto (dura pouco mais de uma hora e, se você não apreciar, não precisa ficar até o final). Quando fomos, verificamos na hora do espetáculo que não havia necessidade de comprar ou reservar os ingressos com antecedência (o que havíamos feito), pois a igreja é enorme e alguns lugares ficaram sobrando; outra dica, não adianta comprar os ingressos mais caros, para lugares situados na nave da igreja, pois você não irá conseguir assistir a nada, pois o órgão e o eventual cantor ficarão de costas para você (nos transeptos, há lugares de vista lateral, que eu acredito que sejam mais caros, mas podem valer à pena…), mas, se não for o caso, fique na lateral mesmo. Se você tiver interesse, dá uma checada no siteNós assistimos, obras de Bach, Mozart e Haydn (salvo engano, havia um outro compositor, que não lembro, infelizmente eu perdi o programa). Fiquei bastante maravilhado por ter conseguido escutar num ambiente tão especial, com uma excelente acústica, a obra de Mozart “Exsultate Jubilate”, com a soprano (não lembro o nome, droga!) acompanhada por um órgão de igreja! Bastante surpreendente!

Catedral de São Jacó, Riga

Catedral de São Jacó, Riga

Deixo para vocês abaixo um vídeo da afinação do órgão da Catedral (tirem o som), com imagens de seu interior (bastante espartano, como toda igreja luterana), e outro com a música “Exsultate Jubilate” pela soprano coloratura Edita Gruberova (infelizmente não é ao som do órgão da catedral).

Nas imediações da Catedral, também estão localizadas as casas mais antigas de Riga, os chamados “Três Irmãos”. A casa que fica à direita da foto abaixo é a mais antiga da cidade e a do meio abriga o Museu de Arquitetura de Riga (não visitamos).

Os "Três Irmãos", as casas mais velhas de Riga

Os “Três Irmãos”, as casas mais velhas de Riga

No próximo post, sobre o distrito art nouveau de Riga, na minha opinião, o ponto alto da cidade.

Anúncios

Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
Esse post foi publicado em Dicas de Viagens, Letônia, Riga. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Riga: uma capital ocidental no Leste – Cidade Velha (Vecrīgā)

  1. Kenia disse:

    Ahhhh finalmente lembrei o nome dos monumentos e das praças da cidade hehehe… Eu adoro ir fazendo anotações sobre a cidade, dessa vez eu fiz no próprio mapa e acabei perdendo e fiquei meio perdida na hora de escrever o post.

    Mas vc sempre tem bastantes detalhes nos seus posts, nada escapa!! Bem legal isso =)

    Curtido por 1 pessoa

Você gostou? Quer acrescentar alguma informação? Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s