Parque Nacional de Gauja – a chamada “Suíça” letã

Quando organizamos nosso roteiro de viagem para a Letônia, como o nosso primeiro dia útil no país seria um feriado (1º de maio), supomos que seria uma besteira permanecer em Riga naquele dia com a perspectiva de encontrar atrações, comércio e até restaurantes fechados. Por isso –  e também por conta da necessidade de se percorrer longas distâncias, inclusive com subidas e descidas aparentemente íngremes, que poderiam tornar o passeio infactível -, nós decidimos contratar com a nossa agência um passeio individual com guia e motorista ao Parque Nacional de Gauja e suas cidades de Sigulda e Turaida. Valeu à pena! Acredito que se estivéssemos sozinhos, não teríamos aproveitado quase nada da parte histórica do lugar.

Pelo que me informei, a região é de fácil acesso de ônibus a partir de Riga.

A guia se chama Ieva (vou procurar o sobrenome dela), falava um ótimo francês (também é fluente em inglês) e conseguiu nos passar ótimas informações sem se tornar uma enciclopédia ambulante, o que pode ser extremamente entediante.

Em primeiro lugar, convém uma pequena explicação sobre a geografia física dos Países Bálticos. Toda aquela região é formada por uma grande planície, assim, não existe nenhuma grande montanha, ou grande depressão: é um território plano, em grande parte coberto por florestas de coníferas. Essa característica acabou trazendo repercussões políticas e econômicas e, na área esportiva, faz com que aqueles países não sejam o melhor ambiente para a prática de esportes de inverno mais radicais, de uma maneira geral. A guia nos relatou que existe uma ótima pista de bobsled.

Nesse contexto, apesar da menção ao país alpino, se você for ao Parque Nacional de Gauja na ânsia de ver enormes montanhas, com picos cobertos por neves eternas, irá se decepcionar. No lugar das grandes elevações, você encontra colinas e planaltos de baixa altitude, mas que, mesmo assim, dão um certo “movimento” àquela região tão plana. Pelas fotos abaixo, dá para se ter ideia do relevo da localidade.

Vista do Novo Castelo de Sigulda para a região de Krimulda.

Vista do Novo Castelo de Sigulda para a região de Krimulda (castelo ao fundo à esquerda)

Vista do Castelo de Turaida

Vista do Castelo de Turaida

Vista do Castelo de Turaida

Vista do Castelo de Turaida

A guia explicou que gauja (leia-se “gauya”) é o nome de uma flor típica local – ela chegou a nos mostrar uma foto pelo celular, mas não consegui encontrar a imagem na internet para mostrar a vocês 😦 – e também do rio que corta o vale, repartindo a localidade nas regiões de Sigulda, Krimulda e Turaida (cada uma com o seu castelo). Confesso que toda vez que leio os nomes das cidades, vem à minha mente a imagem de três irmãs velhas, bem ranzinzas, que moram juntas e vivem às turras, uma implicando com a outra, passando o dia na janela, mexendo com os transeuntes…

Vamos sair da divagação e voltar à vida quase real? Pois bem, como relatei aqui, durante um bom período da Idade Média, parte da região em que atualmente se encontra a Letônia fazia parte do reino da Livônia. Foi nessa época, por volta do século XIII, em que foram fundadas por religiosos de origem germânica as cidades de Riga, Sigulda e Turaida (não sei dizer se Krimulda também surgiu pelas mãos de padres ou de monges e em que data). Apesar de o Cristianismo já estar difundido por aquela parte do globo, na Livônia, ainda eram encontradas tribos pagãs, com cultos anímicos. Acredito – e nesse ponto agradeço a contribuição de algum historiador que porventura passe por aqui – que um dos motivos para a fundação das cidades e a edificação dos castelos, além de questões estratégicas e políticas, tenha sido para facilitar a evangelização dos pagãos e evitar sua conversão ao credo cristão ariano.

Normalmente, antes de viajar para qualquer destino, tenho por hábito ler pelo menos um livro de História do país para onde me dirijo e um livro de literatura. Eu aproveito muito mais, quando consigo fazer isso. No caso dessa viagem, além de ter me concentrado mais na busca de informações sobre a Rússia, não encontrei no Brasil nada, nada, NADA, sobre a Letônia e a Estônia. Os prazos de entrega dos livros em lojas virtuais internacionais também não eram animadores, além de não ter encontrado nenhum livro no formato .epub, compatível com o meu e-Reader (arrependimento por não ter comprado um Kindle). Então, não pude me inteirar tão bem.

Em Sigulda, existem dois castelos: um medieval, construído por uma irmandade de de monges guerreiros (atualmente soa estranho pensar em padres soldados, mas não era algo incomum na Idade Média, principalmente na Europa meridional vide os Templários, ou os Cavaleiros da Ordem de São João das ilhas de Rhodes e de Malta) e um datado do fim do século XIX, erguido sob a dicção de um nobre russo.

Chegada ao Castelo Novo de Sigulda

Chegada ao Castelo Novo de Sigulda

Novo Castelo de Sigulda

Novo Castelo de Sigulda

O chamado Castelo de Verão

O chamado Castelo de Verão

Castelo de Verão e Novo Castelo de Sigulda

Castelo de Verão e Novo Castelo de Sigulda

 

Castelo Medieval de Sigulda

Castelo Medieval de Sigulda

Castelo medieval de Sigulda

Castelo medieval de Sigulda

Não vou enganar ninguém, mas confesso que, quando chegamos ao local, fiquei um pouco decepcionado ao ver o castelo do século XIX… É bonito e tal, mas já vi construções muito mais imponentes e interessantes ao longo da vida em outras partes da Europa. Aparentemente, o castelo da Belle Époque é utilizado atualmente para casamentos e, pelo que li no guia Lonely Planet, em seu interior funciona um restaurante (que não devia estar aberto, também era de manhã cedo). No “Castelo” de Verão, após a construção do Castelo Novo, chegou a funcionar uma igreja ortodoxa, hoje em dia se encontra fechado. Já o castelo medieval é bem bonito e está em ruínas, que não foram restauradas (aparentemente, não estava aberto à visitação quando fomos).

De Sigulda, você pode pegar um teleférico para cruzar o rio Gauja  e assim chegar à Turaida, à Krimulda e à Gruta Gutmana. Estava chovendo, nós acabamos indo de carro.

A Gruta Gutmana é ligada a história de Maija, a Rosa da Turaida, do século XVII. Aparentemente, Maija, estava noiva de um funcionário do castelo de Sigulda e um dia, recebeu uma carta do seu noivo pedindo que se encontrassem na Gruta Gutmana, local usual de encontro. Chegando lá, ao invés de do noivo, ela viu um guerreiro polonês, que havia se encantado por ela e queria forçá-la a se casar com ele. Para preservar a sua virtude, e fazer com que o guerreiro a libertasse, Maija lhe ofereceu um lenço supostamente mágico e, portanto, capaz de proteger quem o utilizasse de qualquer ferimento, instando o cavaleiro a testar os poderes do objeto nela mesma, que morre devido as injúrias, mas preservando a sua honra (pelo jeito “lencinhos” têm papel importante em diversas histórias, lembrando que a Desdêmona foi vítima do ciúme do Otelo por conta de um). História triste, mas aparentemente verdadeira (Maija está enterrada num túmulo próximo à igreja de Sigulda).

Gruta de Gutmanis

Gruta Gutmana, Turaida, Letônia

Gruta de Gutmanis, Turaida, Letônia

Gruta Gutmana, Turaida, Letônia

Gruta de Gutmanis

Inscrições na Gruta Gutmana, Turaida, Letônia

Detalhes das inscrições na Gruta de Gutmanis

Detalhes das inscrições na Gruta Gutmana

Por conta dessa história – ainda que sem final feliz – o lugar ficou conhecido entre os letões como ponto de encontro e juras de amor eterno entre apaixonados, que fizeram marcas nas paredes da gruta, desde os mais remotos tempos. Cheguei a ler inscrições datadas do final do século XVII. A água da Gruta também é considerada milagrosa, aparentemente doentes molham o rosto e a bebem em busca de cura, pessoas necessitadas de ajuda financeira também… A água parecia de fato potável, eu passei a água no rosto, mas não me senti muito confortável em prová-la…

Na frente da Gruta tem uma barraquinha em que uma senhora vende vários doces feitos na região, feitos de com frutinhas silvestres (berries). Eu comprei dois pacotes de balinhas de groselha; a frutinha era envolta numa casquinha feita de açúcar… Bom!!!!!

De lá rumamos para o Castelo de Turaida. Para entrarmos nessa parte do parque, é necessário comprar um ingresso na bilheteria, que fica bem na frente do estacionamento, numa casinha bem ao estilo letão.

Carro antigo estacionado à frente da bilheteria

Carro antigo estacionado à frente da bilheteria

Antes de conhecermos o castelo, visitamos a Igreja de Sigulda, toda feita em madeira, datada do século XVIII. Apesar da simplicidade de seu interior, como em toda igreja de confissão luterana, eu a achei mais interessante do que a parte interna das grandiosas igrejas de Riga. A ótima conservação do local também é um fator importante para agregar beleza. Eu sei que não tem nada a ver, mas à minha cabeça veio a imagem dos templos puritanos, como descritos pelo Nathaniel Hawthorne, na “Letra Escarlate”, nos EUA… Confiram.

Igreja de Sigulda

Igreja de Sigulda

Igreja de Sigulda

Igreja de Sigulda

Interior da Igreja de Sigulda

Interior da Igreja de Sigulda

Na saída da igreja, já dá para você ter uma visão do Castelo de Turaida.

 

Vista do Castelo de Turaida a partir da Igreja de Sigulda

Vista do Castelo de Turaida a partir da Igreja de Sigulda

O Castelo de Turaida foi erigido pela ordem de monges guerreiros, sob o comando do Arcebispo Albert von Buxhoeveden, o mesmo sacerdote que fundou a cidade de Riga. Como já relatei acima, os Países Bálticos estão localizados em uma região bastante plana e, por conseguinte, sem acesso a pedreiras e consequente extração de pedras para a construção. Por conta dessa característica, a maior parte dos prédios, ou são feitas de madeira, ou de tijolos, como é o caso do castelo. O castelo tem um visual externo incrível, diferente dos castelos medievais da Europa Ocidental!

Castelo de Turaida

Castelo de Turaida

Pátio interno do Castelo de Turaida

Pátio interno do Castelo de Turaida

O castelo foi parcialmente reconstruído, dando para distinguir claramente os tijolos novos dos antigos. O seu interior abriga um museu como diversos artefatos da época e com reconstrução de algumas salas. Dentre elas, a que mais vale à pena visitar é antiga capela, que foi pouquíssimo restaurada. Lembrou bastante a Torre de Londres, a visita interna é um passeio mais interessante para crianças do que para adultos. Infelizmente, tiramos poucas fotos sem que um de nós aparecesse, e como este não é o objetivo do blog, não irei postá-las.

Por fim, visitamos o chamado o Jardim Musical da Colina de Dainaum parque de esculturas modernas à frente do Castelo de Turaida. A guia nos explicou que a população dos bálticos, notadamente a letã, nutre uma grande paixão e herança musical. Aparentemente, todo verão, Riga é palco de um festival bastante popular entre os letões de canções folclóricas. Ela nos relatou que as famílias ainda conservam o hábito de passar de pais para filhos as letras e melodias, que, muitas vezes, são heranças culturais daquela própria família há várias gerações. Por conta dessa paixão, o governo criou um parque de esculturas, sendo que cada uma das obras simboliza uma canção. Tem esculturas abstratas, outras com representações humanas (mais uma vez, fotos pessoais, sorry)… É um ótimo lugar para passear, uma pena que o tempo não ajudou…

Daina Hill Song Garden

Daina Hill Song Garden

Daina Hill Song Garden

Daina Hill Song Garden

Espero que apreciem!

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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