Tallinn – uma capital de conto-de-fadas

Quando se atravessa a fronteira entre a Letônia e a Estônia, o que mais me chamou atenção foi a mudança de paisagem. Não que tenha ocorrido alguma alteração significativa no relevo e na geografia da região, muito pelo contrário, as terras continuam planas e a vegetação natural é composta basicamente por pinheiros. Ocorre que, contrariamente ao que acontecia na Letônia, em que a estrada era como se fosse um vale que atravessa uma densa floresta de coníferas, na Estônia, a vegetação de bosque não é tão cerrada e é entremeada por extensas planícies agrícolas. Outra característica marcante é a presença de habitações ao longo da estrada, praticamente inexistentes no país vizinho ao sul. Por outro lado, o país me ligeiramente mais pobre do que a Letônia.

Pelas pesquisas que fiz antes da viagem e que foram confirmadas depois com a visita ao Museu da Ocupação, em Tallinn, a Estônia produzia grande parte dos gêneros agrícolas consumidos pela União Soviética e o país, apesar de bastante desenvolvido em outros setores, ainda mantém a sua forte tradição agrícola. Para quem acha que desconhece por completo a Estônia, lembro que o país desponta no setor de informática, serviços como o Kazaa e o Skype são originários de lá.

Em Tallinn, nós ficamos hospedados no hotel L’Ermitage, situado ao sopé da colina de Toompea, em frente ao Hirvepark, muito próximo à Cidade Velha. O hotel é moderno, com quartos amplos, banheiro grande e limpo, bom café da manhã e staff muito simpático e prestativo, que fala um inglês perfeito. O único porém é que para você chegar à parte turística da cidade, ou você sobe a colina, atravessando o parque e ingressa na parte alta da Cidade Velha, ou a contorna, margeando a avenida Tompuiestee (onde fica o hotel), que vira Tallinn-Paldiski e, após, Karli puiestee, até a Praça da Liberdade (Vabaduse väljak), cruza os muros medievais e entra na parte baixa da Cidade Velha. Quaisquer das opções podem ser um pouco cansativas, principalmente no frio, no vento, na neve, na chuva (manifestações climáticas pelas quais passamos).

No primeiro dia, resolvemos botar a lata d’água na cabeça e nos arrastarmos vagarosamente morro acima. Aqui fica a minha única ressalva acerca de questões atinentes à criminalidade durante todo o transcurso da viagem. Quando atravessamos pela primeira vez o Hirvepark, vimos jovens no local comprando e consumindo drogas, nas outras vezes que passamos por lá não presenciamos nada. Curiosamente o lugar de “distração” dos jovens fica embaixo dos muros do palácio onde funciona o Parlamento Estoniano (Riigikogu). Não deu medo, nem sensação de insegurança – apesar de que este sentimento é algo bastante pessoal -, mas não é divertido passar por algo assim, principalmente num país em que você não entende patavina da língua.

Lá em cima, a primeira coisa com que você se depara é com uma torre alta chamada Pikk Hermann, que atualmente integra os limites do Palácio do Parlamento, local de fundação da cidade de Tallinn.

Pikk Hermann, Colina de Toompea, Tallinn

Pikk Hermann, Colina de Toompea, Tallinn

Pikk Hermann ao anoitecer, Tallinn

Pikk Hermann, Tallinn

Defronte à sede do Parlamento, está a Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky, construída nas últimas décadas do Império Russo, como uma das medidas de russificação dos Países Bálticos implementada pelo czar Alexandre III, a qual foi dada continuidade por seu filho Nicolau II, o último monarca russo, e também pelo regime soviético. O interior da catedral é lindo, pena que, como em toda igreja ortodoxa (a de Riga também é bonita, mas essa é mais), não são permitidas fotografias em seu interior. Outro dado curioso é que, quando estávamos saindo da igreja, ia começar um casamento. Ao contrário do que acontece no Brasil, a cerimônia ocorreu de portas fechadas (pelo Direito Brasileiro seria causa de nulidade do casamento) e tinha muito poucos convidados. O casal de nubentes era bem bonito (não fotografamos por uma questão de respeito).

Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky, Tallinn

Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky, Tallinn

Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky, Tallinn

Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky, Tallinn

Fachada da Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky

Fachada da Catedral Ortodoxa de São Alexandre Nevsky

Prosseguindo os caminhos encantados da colina, encontramos uma fada má que lançava um feitiço nos turistas mal educados, transformando-os na cara do Joseph Stalin. Não… Apesar da ambiance “Contos de Grimm e de Perrault” que a cidade possui, infelizmente não encontramos nenhum duende ou criatura encantada por lá. Então, na verdade, nos deparamos com a antiga Catedral de Santa Maria (Toomkirik), do século XIII. Originalmente era uma catedral de confissão católica, atualmente luterana e, como vocês podem imaginar, de interior branco, bastante austero, com uns bancos altos… O interessante dessa igreja é antessala que dá acesso à nave, não tem nada de especial, mas a pouca iluminação somadas às portas medievais me agradaram muito.

Antiga Catedral (Luterana), Tallinn

Antiga Catedral de Santa Maria (Luterana), Tallinn

Antiga Catedral (Luterana), Tallinn

Antiga Catedral de Santa Maria (Luterana), Tallinn

Fachada da antiga Catedral (Luterana), Tallinn

Fachada da antiga Catedral de Santa Maria (Luterana), Tallinn

 

A partir da Catedral de Santa Maria, se você andar em qualquer direção, desde que não dê meia-volta, irá fazer o contorno da colina de Toompea e chegará aos mirantes, que valem à pena espiar.

Praça em frente à Catedral de Santa Maria, em Toompea, Tallinn

Praça em frente à Catedral de Santa Maria, em Toompea, Tallinn

Rua em Toompea, Tallinn

Rua em Toompea, Tallinn

Vista da Cidade Velha (cidade baixa) a partir do mirante de Toompea

Vista da Cidade Velha (cidade baixa) a partir do mirante de Toompea. Detalhe para a torre da Igreja de Santo Olavo

Vista da Cidade Velha (cidade baixa) a partir do mirante de Toompea, na companhia de uma gaivota amigável

Vista da Cidade Velha (cidade baixa) a partir do mirante de Toompea, na companhia de uma gaivota amigável

Vista da colina de Toompea para a Cidade Velha (cidade baixa) de Tallinn. Detalhe para as torres da muralha e da Igreja de Santo Olavo

Vista da colina de Toompea para a Cidade Velha (cidade baixa) de Tallinn. Detalhe para as torres da muralha e da Igreja de Santo Olavo

Na pracinha que antecede um dos mirantes, tem uma lojinha de souvenirs imperdível. Acabei comprando mais um soldadinho de chumbo para a minha ainda insipiente coleção.

Soldadinho de chumbo com a bandeira da Estônia

Soldadinho de chumbo com a bandeira da Estônia

Contornando a colina, você retornará à frente da Catedral Ortodoxa. Dali você pode escolher descer para a cidade baixa por uma rua enladeirada, ou atravessar a muralha e rumar para baixo por uma escadaria. As duas opções são cansativas. Sugiro fazer as duas em momentos diferentes. Se você escolher passar pelas muralhas, entrará numa pracinha onde fica o Neitsitorni Kohvik, o Museu Café da Torre das Donzelas, aparentemente um café museu que fica numa das torres da muralha da cidade. Nós não entramos. Tem cara e certamente é um piège à touristes, mas nem por isso deixem de conhecer pelo menos a parte exterior, que é linda.

Praça em frente ao Museu Café da Torre das Donzelas, Tallinn

Praça em frente ao Museu Café da Torre das Donzelas, detalhe para o portal da “rua escada”, que dá acesso à cidade baixa, Tallinn

Café Museu Torre das Donzelas, Tallinn

Café Museu Torre das Donzelas, Tallinn

Vista externa do Café Museu das Torres das Donzelas ao anoitecer, Colina de Toompea, Tallinn, Estônia

Vista externa do Café Museu das Torres das Donzelas ao anoitecer, Colina de Toompea, Tallinn, Estônia

Vista externa do Café Museu das Torres das Donzelas ao anoitecer, Colina de Toompea, Tallinn, Estônia

Vista externa do Café Museu das Torres das Donzelas ao anoitecer, Colina de Toompea, Tallinn, Estônia

Descendo a “escadinha”, você dará de cara com a Igreja Museu de São Nicolau (Niguliste Museuum), uma igreja do século XIII, que atualmente abriga o museu de arte sacra medieval da Estônia. Ela foi bastante massacrada durante a Segunda Guerra Mundial e restaurada à perfeição em seu exterior (no interior, nem tanto). É aqui que se encontra um dos mais famosos quadros de pintura medieval chamado “Dança Macabra”, que representa a fatalidade, ou seja, pouco importa quem é você, se é rico, pobre, padre, rei, mendigo… todos passam a vida dançando com a morte. O quadro é impressionante! Eu não tenho por hábito fotografar quadros, então, quem tiver curiosidade, clica no link acima e poderá ter acesso a fotografias do quadro. O único senão desse museu foram as velhotas da bilheteria e da chapelaria, verdadeiras mulherocas! Mesmo vendo a minha dificuldade e sabendo de antemão que o museu fechava em meia hora, elas não nos avisaram do horário e venderam assim mesmo os bilhetes de entrada. Resultado: tivemos que ver as coisas meio corridas, mas até que valeu.

Rua escada, que dá acesso à cidade baixa.

Rua escada, que dá acesso à cidade baixa.

Igreja Museu de São Nicolau, Tallinn

Igreja Museu de São Nicolau, Tallinn

Fachada lateral da Igreja de São Nicolau, Tallinn

Fachada lateral da Igreja de São Nicolau, Tallinn

Interior da Igreja Museu de São Nicolau, Tallinn

Interior da Igreja Museu de São Nicolau, Tallinn

Igreja Museu de São Nicolau ao anoitecer

Igreja Museu de São Nicolau ao anoitecer

Se você optar por descer da colina de Toompea pela ladeira, você descerá a Pikk Jalg que termina numa das portas da muralha, chamada de Torre Portal da Perna Longa (Pika jala väravatorn):

Torre Portal da Perna Longa

Torre Portal da Perna Longa

Mas como em toda e qualquer cidade, o mais legal é caminhar sem rumo, e se perder pelas ruazinhas medievais… É importante esclarecer que Tallinn foi severamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial pelo Exército Russo – eis que ela estava ocupada pelas forças armadas nazistas. Acontece que o trabalho de restauração foi primoroso, tanto que a Cidade Velha foi incluída na lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO.

Vista para o Museu Igreja de São Nicolau da rua Rataskaevu

Vista para o Museu Igreja de São Nicolau da rua Rataskaevu

Porta da Cidade Velha para a Praça da Liberdade

Portão dos Monges

Muralhas de Tallinn vistas do exterior.

Muralhas de Tallinn vistas do exterior

Prefeitura de Tallinn

Prefeitura de Tallinn

Portão do Mosteiro

Portão do Mosteiro

Muralhas de Tallinn

Muralhas de Tallinn

Vista das casas coladas nas muralhas pela rua Kooli

Vista das casas coladas nas muralhas pela rua Kooli

Tomara que gostem! No próximo post falarei sobre o Museu da KGB, que fica no Hotel Viru, no centro de Tallinn, e sobre o Museu da Ocupação da Estônia.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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5 respostas para Tallinn – uma capital de conto-de-fadas

  1. Sergio disse:

    Gostei muito do museu, pelo que vi no site eles têm um acervo bem eclético, deve ser bem interessante!
    Uma pergunta: você tem informação sobre algum ferry que ligue Tallin a Helsinki? No mapa a distância não parece ser grande…

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  2. Maria Nina disse:

    Muito interessante o seu relato, André. Estou adorando viajar com você por locais que eu nem sonhava! Já fiquei interessada. Parabéns pela iniciativa.

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