Tallinn – As ruínas do Convento de Pirita

Depois de uma semana bastante atrapalhada em termos de trabalho, enfim, consegui um tempo para me distrair e atualizar o blog.

Eu sei que havia prometido uma postagem sobre os museus de Tallinn de conteúdo mais político, relacionados à conturbada fase de ocupação nazista e soviética, mas me lembrei que havia esquecido de tecer meus comentários acerca de um local menos visitado pela maioria das pessoas que viajam à Estônia: as ruínas do convento de Pirita.

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Pirita é uma derivação para o estoniano do nome próprio – pavoroso por sinal –  de origem sueca, Birgitta (traduzido em francês como Brigitte, para o inglês como Bridget e para o alemão como Brigitta) e que dá nome ao bairro de Tallinn, onde está localizada a atração, e também ao rio que corta aquela parte da capital estoniana. Este distrito fica à beira do Mar Báltico (infelizmente o tempo e contratempos não nos deixaram passear e fazer fotos) e, segundo consta nos guias de viagens, os talinenses costumam frequentar o distrito para pegar sol no verão. Também foi nas águas que margeiam Pirita que foram disputadas as provas de regata durante os Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980 (vamos lembrar que Moscou não tem mar…).

O local onde estão situadas as ruínas e o novo convento fica um pouco distante da região da Toompea, em que estávamos hospedados. No hotel, nos informamos sobre a possibilidade de nos dirigirmos ao museu via transporte público, nos sendo desaconselhado pela recepção. Além da minha natural dificuldade para subir em transportes públicos, no dia estava nevando (pois é, em pleno mês de maio!) e o valor do taxi não seria exorbitante (salvo  engano, deu 12€). A corrida durou cerca de 20 min, o que é uma enormidade, principalmente se você levar em consideração que Tallinn é uma cidade de cerca de trezentos mil habitantes (é menor do que a cidade de Niterói, que tem aproximadamente quinhentos mil habitantes) e a maioria de suas atrações, na Cidade Velha, são perfeitamente acessíveis a pé.

As informações que tenho sobre a história do convento têm por base a minha memória (em menor parte), consistente na lembrança do que li nos murais de informação espalhados pela atração, mas principalmente no folheto, cuja foto acima anexei ao presente relato, tanto que não irei me alongar.

O Convento de Santa Brigite foi estabelecido em Tallinn no século XV, sendo àquela época, o maior convento feminino da Livônia. As freiras brigetinas tinham basicamente uma vida espiritual, por meio de orações e de cantos, sendo que as irmãs são reputadas como o primeiro grande coral da Estônia.

Pois bem. No final do século XVI, o exército do Império Russo destruiu o convento, sob a alegação de que em seu interior eram escondidos opositores à já iniciada política de russificação nos Países Bálticos. A igreja e o claustro foram vítimas de duas incursões bélicas, sendo que a última, datada de 1577, deixou a abadia no estado em que ela se encontra atualmente. Nos anos seguintes, as ruínas foram utilizadas como esconderijo pelos mais diversos tipos de pessoas e também como pedreira para a construção de casas para os habitantes da então cidade de Reval (nome de origem alemã com o que Tallinn era chamada durante boa parte de sua História, notadamente durante a ocupação pela Rússia czarista).

Apenas em 2001, após a queda do regime soviético, quando a religião foi mais uma vez permitida, que o novo convento foi consagrado.

Chega de blá, blá, blá. Vamos às fotos:

Ruínas do Convento de Pirita - vista do cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior – Vista do cemitério

Ruínas do Convento de Pirita - vista do cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior – Vista do cemitério

Não sou nenhum entendido em Arquitetura, porém dá para perceber que a igreja, apesar de construída já no final da Idade Média – e gótica – recebeu muita influência do estilo românico (mais em voga no início da Era Medieval, na Europa Ocidental). Esta mistura de estilos é passível de verificação nas fotos abaixo, em que são mostradas as demais fachadas externas. Por exemplo, percebe-se que as janelas, apesar de longas no cumprimento e em formato de ogiva (arco quebrado, arc brisé), característico do estilo gótico, são bastante estreitas, deixando pouco espaço para a entrada de luz no interior do templo (o que lembra o “art romain”). Por outro lado, existem também arcos arredondados que ornam outras partes do prédio, que possui altura relativamente baixa e suas paredes são sustentadas por meio de vigas presas à própria estrutura do edifício – o que novamente aproxima do estilo românico -, sem a utilização de arco-botantes (arcs-boutants), tão comuns em igrejas góticas. Convém lembrar que a arquitetura gótica foi desenvolvida a partir do conceito de Santo Agostinho de que “Deus é luz”, por isso a importância dos vitrais e a maior luminosidade no interior das igrejas. Já, no estilo românico, as igrejas eram mais fechadas, a decoração era feita com o uso de pintura.

Ruínas do Convento de Pirita - Exterior

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior

Ruínas do Convento de Pirita - Exterior

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior

Ruínas do Convento de Pirita - Exterior

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior

Ruínas do Convento de Pirita - Exterior

Ruínas do Convento de Pirita – Exterior

Vejam o interior da igreja:

Ruínas do Convento de Pirita - Interior

Ruínas do Convento de Pirita – Interior

Ruínas do Convento de Pirita - Interior

Ruínas do Convento de Pirita – Interior

No lugar, como em todo convento, existe um cemitério. Boa parte das sepulturas data da Idade Média e confere ao lugar uma atmosfera um pouco diferente, um charme fantasmagórico, com um quê para “The return of the living-dead” muito do meu agrado. Adoro cemitérios, posso passar horas lendo as datas das lápides, imaginando a vida daquelas pessoas e pensando que realmente passaremos mais tempo mortos do que vivos…

Ruínas do Convento de Pirita - Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita - Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita - Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Cemitério

Algumas lápides estão quebradas o que, na minha sombria opinião, confere um ar mais charmoso e até romântico ao local, lembram o Edgar Allan Poe, por um momento, gostaria que um corvo tivesse aparecido e, ao invés de grasnar, me dissesse “Nevermore”… Pena que o passeio no cemitério não era a predileção de todo mundo e não pude dar mais asas à minha fértil imaginação, nem ficar muito tempo procurando por zumbis e por fantasmas.

Ruínas do Convento de Pirita - Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita - Cemitério

Ruínas do Convento de Pirita – Cemitério

O lugar era nosso! Nós éramos os únicos visitantes. Acredito que o tempo frio com um misto de chuva e de neve deva ter afastado os demais turistas. Confesso que o dia cinza deu um outro sabor ao passeio. No sol, deve ser lindo, mas, na minha opinião, combina menos com o local. Infelizmente não pudemos ficar muito tempo em Pirita, pois, supostamente, havíamos esquecido um dos celulares no taxi e saímos correndo de lá, voltamos ao hotel, perguntamos no ponto… para, comme d’habitude, encontrarmos o telefone quietinho descansando na mesa do quarto… Ai, ai…

Ou seja, vale à pena conhecer as ruínas, até porque é uma forma de você ter acesso ao outro lado da capital, que não tem nada a ver com a Cidade Velha, composto de prédios de arquitetura soviética, construções meramente utilitárias, mormente do período pós-stalinista. É bastante interessante, principalmente para quem curte História.

Por derradeiro, tomo a liberdade de comentar que os nomes estonianos podem parecer bastante divertidos e engraçados para os falantes de outros idiomas: Pirita, Hotel Viru, Kiek in de Kök (lê-se como em inglês)… Por sinal, eis a torre de nome divertido, que também fica nas muralhas da Cidade Velha, em Toompea:

Kiek in de Kök

Kiek in de Kök

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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