Tallinn – Museu das Ocupações

Se você planeja uma viagem para os Países Bálticos e se for do seu desejo visitar museus, tente utilizar as segundas-feiras como o dia para o seu deslocamento. Tanto na Letônia como na Estônia, a maioria dos museus fecha neste dia (na França, os museus fecham na terça, fato que descobri de maneira bastante insólita, mas isso fica para outro post). Como chegamos a Tallinn num domingo à tarde, tivemos que escolher quais museus queríamos ver e verificar seus horários de abertura. Em princípio, tínhamos planejado visitar o Museu das Ocupações, o Museu Kadriog e o Museu do Hotel Viru & KGB. Na recepção do hotel, nós tivemos a triste notícia que tanto o Museu das Ocupações, quanto o Kadriog, estariam fechados no dia seguinte à nossa chegada, então, acabamos forçando a barra de ir diretamente ao Museu das Ocupações e deixaríamos o Hotel Viru para o outro dia e o Kadriog para quando voltarmos à Estônia, hélas!

O Museu das Ocupações fica num prédio de arquitetura contemporânea, em frente à Igreja de Carlos XI (Kaarli kirik), de confissão luterana (que estava fechada, mas seu sino tocava marcando as horas) e da Biblioteca Nacional da Estônia (esta última, construída nos modelos soviéticos e é considerada um dos “monstros” arquitetônicos da capital estoniana, mas eu gostei).

Igreja de Carlos XI (luterana) - Tallinn

Igreja de Carlos XI (luterana) – Tallinn

Biblioteca Nacional da Estônia

Biblioteca Nacional da Estônia

Logo na entrada do museu, você se depara com uma esculturas de pedra representando malas de viagens, todas elas etiquetadas com o nome John Smith e uma cidade qualquer: Tallinn, Vilnius, Antuérpia, Paris, Nova Iorque… Este simbolismo comporta duas interpretações, na minha visão: em primeiro lugar, que atrocidades do gênero podem acontecer em qualquer lugar e com qualquer um. Em segundo lugar, tenta retratar a prática utilizada pelos nazistas – e acredito também que pelos soviéticos – para as deportações de pessoas para os campos de concentração e para os gulags, em que recomendavam aos deportados escolher mudas de roupas e pertences, sob a alegação de que eles iriam apenas fazer uma viagem… Uma forma inteligente, mas muito cruel, de evitar escândalos ou a resistência por parte das vítimas e, assim, não alarmar os vizinhos.

Esculturas na entrada do Museu das Ocupações - Tallinn

Esculturas na entrada do Museu das Ocupações – Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações - Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações – Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações - Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações – Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações - Tallinn

Escultura na entrada do Museu das Ocupações – Tallinn

Estas malas se tornaram um dos símbolos do museu e a loja disponibiliza miniaturas para venda como souvenirs. Eu comprei. Agora, analisando com um pouco mais de cuidado, não sei se foi uma aquisição de muito bom gosto, enfim…

Souvenirs do Museu das Ocupações, Tallinn

Souvenirs do Museu das Ocupações, Tallinn

Nesse ponto, acredito que seja importante abrir um parêntese para tecer uma breve explicação sobre a História recente da Estônia, da Letônia – e do mundo inteiro – para facilitar um pouco a compreensão dos acontecimentos.

Até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, os Países Bálticos viviam já há muito tempo sob o domínio do Império Russo czarista, que, àquela altura, já estava em franca decadência.

Assim, com o advento da Guerra, houve o agravamento da crise interna (já vinha em estado crítico desde a Guerra do Japão), que, aliado à incapacidade do czar Nicolau II, e também da czarina Alexandra Feodorovna (nos vários momentos em que o czar estava acompanhando o exército), de administrar o país – o que levou à nomeação e à demissão de ministros em escala industrial, inclusive de pessoas competentes como o Primeiro Ministro Sergei Witte (o período em que a czarina ficou no comando foi particularmente desastroso, pois ela “governava” realmente levando em consideração aspectos espirituais, sentimentos de índole pessoal…, sem qualquer discernimento ou visão prática da situação caótica que o Império estava atravessando). Sua real preocupação era a saúde do seu filho, o czarevitch Alexei, que era hemofílico… Ótima mãe, péssima estadista.

Foi nesse contexto que ocorreu a Revolução de Outubro de 1917 (a conhecida Revolução Bolchevique), que instaurou o regime comunista na Rússia. Por conta desta questão interna, a Rússia se viu obrigada a se afastar da Tríplice Entente e, por conseguinte, a se retirar da Guerra, assinando o Tratado de Brest-Litovsky (hoje em dia, a cidade de Brest fica na Bielorrússia) com a Alemanha. Esse período de conturbação interna russa criou o ambiente favorável para que cada um dos Países Bálticos declarasse a sua independência em relação ao poderio russo.

Assim, os Países Bálticos viveram de forma independente durante cerca de 20 anos até que, já na Segunda Guerra Mundial, foram invadidos pelos soviéticos, nos termos do tratado de não-agressão assinado pela União Soviética com a Alemanha (Pacto de Molotov-Ribbentropp). Segundo os dispositivos deste tratado, a Alemanha e a URSS dividiram a Europa em áreas de influência, tendo os Países Bálticos recaído sob o manto da URSS e, consequentemente, invadidos. Só que pactos foram feitos para serem rompidos, então, em 1941, os alemães invadiram a região do Báltico, onde ficaram até o final da Guerra.

No acervo do Museu das Ocupações, há esclarecimentos explicando que, naquele momento histórico, os estonianos acreditavam que os alemães seriam os salvadores do país do jugo soviético (que foi terrível) e então, saudaram seus invasores como se eles fossem verdadeiros libertadores. Pelo que se pode aprender no local, para a população estoniana em geral, a invasão nazista foi menos opressora do que a soviética – acredito que esta opinião não seja compartilhada pela comunidade judaica, por motivos óbvios. Os nazistas dirigiram sua ira para determinados grupos, o que não ocorria com os soviéticos que, na sua política imperialista eliminava, massacrava e mandava para os gulags, na Sibéria, quem quer que eles considerassem opositores ao regime – sendo que este sentimento era algo muito subjetivo, indo desde conspirações terroristas a frequentar igreja, usar algum símbolo religioso… Testemunhando os horrores nazistas e soviéticos, percebe-se como a humanidade é um lixo!

Com a derrota dos nazistas na Guerra, os Países Bálticos foram novamente invadidos pelos soviéticos, permanecendo por sombrios cinquenta anos, até o colapso da URSS em 1991.

Lendo o guia Lonely Planet, aparentemente o Museu da Ocupação da Letônia é mais interessante para o turista leigo na história dos Países Bálticos do que o de Tallinn, principalmente, em termos de objetos à mostra (infelizmente, não deu para ir). Aqui o forte são os vídeos apresentando as histórias e dramas pessoais de quem viveu no período (a maior parte são depoimentos de vítimas do regime de Moscou). Outra parte chocante é uma divisória no salão central do museu feita com várias portas de celas de prisão, bem triste. Fora isso, o Museu é recheado de memorabilia do tempo soviético:

Bebedouro - Museu das Ocupações - Tallinn

Bebedouro – Museu das Ocupações – Tallinn

Museu das Ocupações, Tallinn

Museu das Ocupações, Tallinn

Parafernália eletrônica soviética - Museu das Ocupações - Tallinn

Parafernália eletrônica soviética – Museu das Ocupações – Tallinn

Todas as estátuas de líderes soviéticos, que estavam espalhadas pelas cidades estonianas foram retiradas de seus lugares, acredito que muitas tenham sido destruídas, mas algumas foram preservadas no museu.

Museu das Ocupações - Tallinn

Museu das Ocupações – Tallinn

Busto do Lenin e cartazes de propaganda soviética - Museu das Ocupações - Tallinn

Busto do Lenin e cartazes de propaganda soviética – Museu das Ocupações – Tallinn

Museu das Ocupações, Tallinn

Museu das Ocupações, Tallinn

E abaixo, seguem alguns posters  de propaganda soviética:

Poster de propaganda Soviética - Museu da Ocupação - Tallinn

Poster de propaganda Soviética – Museu da Ocupação – Tallinn

Poster de propaganda Soviética - Museu da Ocupação - Tallinn

Poster de propaganda Soviética – Museu da Ocupação – Tallinn

Poster de propaganda Soviética - Museu da Ocupação - Tallinn

Poster de propaganda Soviética – Museu da Ocupação – Tallinn

Por fim, ressalto que a estrutura do museu é toda feita para lembrar uma prisão, um campo de trabalhos forçado, desde o elevador até a entrada dos banheiros.

Esse post ficou enorme, deixo o Hotel Viru para outra ocasião.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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