Tallinn – Museu Viru & KGB

Um das razões que me levou a querer visitar o Leste Europeu, principalmente países oriundos do bloco soviético é a sua interessante, mas conturbada História política e de perseguições de seu povo.

Nesse contexto, não existe nenhuma entidade no mundo que tenha assombrado tanto o meu imaginário, que nasci nos tempos da Guerra Fria, do que a KGB. Tudo bem, alguém pode alegar que a Gestapo também passeou pelos pesadelo das pessoas com frequência, concordo, mas, quando eu nasci, ela já não existia mais, não era um terror atual, ao passo que a KGB atuava a pleno vapor e a mídia ocidental, capitaneada pelos EUA, se dava ao trabalho de divulgar histórias horríveis – algumas verdadeiras, outras não – para aterrorizar o mundo contra o perigo vermelho. Os filmes do James Bond também cumpriram a contento o seu intuito de disseminar a propaganda antirrussa.

Abro um parêntese aqui para dar a minha opinião de que alguns países que em princípio são ditos como democráticos, para uso interno, externa corporis, cometem barbaridades que não ficam atrás dos relatos que temos da KGB. A atuação da CIA em países como o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão… não é nenhuma gracinha; o Mossad, em Israel, também é de chorar. Isso sem falar nas centenas de atrocidades feitas em prol da salvaguarda dos Direitos Humanos (quando a sua defesa interessa por razões diversas do que a humanitária, haja vista que em outros lugares os mesmos direitos são vilipendiados e nada se faz…), o desrespeito à autodeterminação dos povos… O que eu estou querendo deixar claro é que houve mudanças – óbvio, não sou idiota de pensar o contrário, em outros momentos, sequer poderia cogitar de escrever esse texto sem correr perigo de vida – mas as modificações não são tão pungentes assim. Advogo pela abolição de quaisquer desses métodos, pouco importam os motivos que levam os governos a adotá-los, inclusive a segurança de sua própria população. Os fins não justificam os meios!

Acho importante informar que, na Rússia, a polícia secreta (e política) já estava institucionalizada desde os tempos do Império Russo, empregando basicamente os mesmos métodos, fomentando o terror com a perspectiva de deportação para a Sibéria, utilizando de espionagem, delações, tortura, oprimindo a imprensa, o Judiciário, as massas populares… Na era czarista, o serviço secreto tinha o nome de Okhrana, foi criada pelo truculento czar Alexandre III, com sede em São Petersburgo. Nos primeiros anos do regime Bolchevique, a Okhrana foi substituída pela Tchecka, já em Moscou, cuja atribuição principal era a de coibir qualquer atitude antirrevolucionária (sendo que nessa definição pode ser enquadrado qualquer ato), que foi, então, sucedida pela KGB. cuja sigla significa Comitê de Segurança do Estado (Комите́т госуда́рственной безопа́сности CCCP), com sede na Praça Lubyanka, na capital russa.

E aqui começa a história do Hotel Viru. Sua construção foi realizada por uma empreiteira finlandesa, contratada pelo alto escalão do Partido Comunista, como forma de propaganda para o mundo capitalista de que o povo soviético vivia em felicidade, riqueza e abundância, tendo sido finalizada no início dos anos 70 (acredito que a proximidade dos Jogos Olímpicos de Moscou de 1980,  tenha sido um grande incentivo para a sua construção, já que Tallinn sediaria as provas de regata).

 

Panfleto Hotel Viru & KGB

Panfleto Hotel Viru & KGB

 

Quando de sua construção, o hotel era (e acho que ainda é), o edifício mais alto da capital estoniana, por conta desta característica, somada à localização da própria cidade de Tallinn, situada a poucos quilômetros de Helsinki, a capital finlandesa, foi determinante para que em seus últimos andares fosse instalado um posto avançado da KGB. A existência desta unidade da polícia secreta era para ser um segredo, mas, obviamente de polichinelo, pois todo mundo conhecia e fingia ignorar. A guia nos relatou que, todos os dias, chegavam uns homens sisudos vestidos de terno, que subiam para os últimos andares do edifício. A entrada para o “QG” era camuflada e as janelas daqueles andares eram todas cobertas por blackouts (não se sabe exatamente o porquê, já que o tráfego aéreo era minuciosamente controlado e não havia prédio mais alto por centenas de quilômetros). Vejam a vista do hotel.

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, Tallinn

Vista do Hotel Viru, atrás do letreiro, Tallinn

Vista do Hotel Viru, atrás do letreiro, Tallinn

O hotel possui cerca de 240 quartos, sendo que 60 deles eram monitorados. Se você fosse um ocidental em visita a Tallinn, a Inturist (agência turística estatal soviética) determinava que você tinha obrigatoriamente que se hospedar no hotel, você seria monitorado sim, iriam anotar com quem você conversou (inclusive funcionários), onde você foi e tudo o que você fez durante a sua estadia, dependendo do seu grau de periculosidade aos olhos dos soviéticos, você ficaria instalado ou não num dos quartos monitorados. Nesse ponto, você entra realmente num clima de filme de espionagem. Havia furos nas paredes, foram desenvolvidas câmeras fotográficas com lentes finas (lembram canudos), capazes de serem introduzidas em orifícios nas paredes para poder filmar e fotografar o interior dos quartos, todos os banheiros e espaços comuns do hotel possuíam escuta (quando fizeram a reforma do hotel, após o colapso da URSS, encontraram quilômetros de fios e escutas camuflados em vasos de planta, em lustres, pés de mesa, bules…). Acho que ficamos tão embasbacados com as explicações da guia (maravilhosa!), que acabamos não tirando muitas fotos – o que explica também toda a minha memória sobre visita. Ao contrário do que se possa imaginar, as conversas não eram gravadas no “QG” localizado na cobertura, mas sim em uma salinha do segundo andar, junto ao restaurante do hotel.

Até hoje paira uma certa dúvida sobre o que os oficiais da KGB faziam nas instalações dos andares superiores do prédio. Acredita-se que, dentre outras funções, eles tentassem interceptar ondas de rádio, de televisão transmitidas pelos ocidentais via Helsinki e, assim, bloquear programações… A guia nos contou que a proximidade entre as duas cidades permitia que os televisores em Tallinn captassem a programação finlandesa e como o estoniano e o finlandês são línguas irmãs, de facílima compreensão entre si, ressalta a posição estratégica de Tallinn. Eis as fotos do “QG”:

Hotel Viru - Escritório da KGB, Tallinn

Hotel Viru – Escritório da KGB, Tallinn

Hotel Viru - Escrivaninha do oficial da KGB, Tallinn

Hotel Viru – Escrivaninha do oficial da KGB, Tallinn

Observando a foto acima, vocês podem perceber à esquerda o necrológio para o ex-Secretário-Geral do Partido Comunista da URSS, Yuri Andropov, que comandou o Estado soviético por pouco mais de 15 meses (entre o final de 1982 e o início de 1984), após ter passado 15 anos à frente da KGB. Bom, a guia nos mostrou um jornal anterior, onde aparecia estampada a foto de Leonid Brejnev (que foi o anterior Secretário-Geral do Partido Comunista) e nos perguntou o que víamos de estranho nos dois necrológios. Eram exatamente iguais! Pelo jeito, a morte do Andropov pegou o alto escalão da URSS de surpresa, que eles não tiveram tempo hábil para elaborar novos dizeres elogiosos sobre o defunto. São situações pequenas, mas que demonstram os indícios de desmantelamento e de crise no Estado soviético.

O telefone vermelho acima, talvez fosse o único em Tallinn, quiçá em toda a Estônia, que você podia falar tranquilamente, ele é revestido de chumbo (pesa muito), o que nos leva a crer que por ele possam ter sido transmitidas informações para os governos ocidentais…

Outra situação curiosa que vale à pena ser narrada é que, na cozinha do hotel, eram produzidas as mais finas pâtisseries da cidade, todas elas dirigidas aos turistas. Só que, no fim do regime soviético, havia uma crise de desabastecimento, então, por mais que as pessoas possuíssem empregos (ficar desempregado era crime na URSS, após a conclusão dos estudos) e algum poder aquisitivo, não havia nada para comprar nas lojas, estantes vazias… Então, os habitantes da cidade utilizavam as iguarias produzidas no hotel como moeda de troca, faziam escambo de tudo, desde roupas, utensílios domésticos até outros gêneros alimentícios… O emprego no hotel era disputadíssimo, não apenas por conta do acesso aos produtos da cozinha, mas também por conta dos presentes que os hóspedes poderiam deixar para os funcionários (lembrando que as gorjetas não eram aceitas, haja vista que a posse de moeda estrangeira também era crime na URSS). A guia nos disse que sacolas plásticas (tipo as do supermercado Pão de Açúcar e Extra, sabe?) eram considerados itens trendy para os talinenses naquele momento histórico. Como uma bolsa Birkin, da Hermès, atualmente. Bizarro!

Outra situação interessante é que no hotel era permitida a exibição de shows com mulheres semi-nuas, de conteúdo um pouco mais picante, algo impensável durante o pudico regime totalitário.

É interessante como os regimes totalitários se assemelham! Sejam eles de esquerda ou de direita! Paradoxalmente, quanto mais você se afasta daquilo que você odeia e despreza, mais você se aproxima. Histórias parecidas certamente podem ser relatadas por quem vivenciou os regimes fascistas (de direita) da Alemanha, da Itália, do Chile…

No colapso da URSS, as recepcionistas do hotel, um dia viram os agentes da KGB entrarem e não os viram sair. Elas ficaram sem saber mais ou menos o que fazer, avisaram a gerência do hotel, que também não se manifestou. Até que, passados quinze dias, eles resolveram entrar nas salas e constataram que, aparentemente, os agentes deviam ter recebido alguma ordem de Moscou e passaram os últimos dias eliminando provas, mas não conseguiram se desfazer de tudo. Pela forma da desordem no ambiente, acredita-se que eles devem ter sido contactados por alguém do alto comando e instados a saírem às pressas das instalações deixando tudo para lá, e o ambiente foi mantido assim desde então.

Outro ponto interessantíssimo nessa visita foi a possibilidade de conversar diretamente com estonianos, outros visitantes do museu, sobre diversas questões. Efetivamente não havia liberdade de viagem para o exterior, os soviéticos só podiam fazer turismo interno dentro dos limites da URSS, mesmo para países integrantes da “cortina de ferro”, não era possível. Em relação aos acontecimentos atuais envolvendo a Ucrânia e a possível extensão para os Países Bálticos, esta situação parece mais um alarmismo fomentado pela imprensa ocidental do que um sentimento próprio deles, existe por óbvio uma rivalidade cultural e histórica entre os russos e os bálticos, mas a convivência entre os dois países não é turbulenta, até porque os estonianos – e também os letões – de etnia russa não querem se tornar russos (o que é justificável, porque a a qualidade de vida nos Países Bálticos me pareceu infinitamente melhor do que na Rússia – mas isso é assunto para outro post). Outra característica interessante é que eles não possuem qualquer informação sobre o Brasil, compreensível, pois nós também não sabemos nada sobre eles…

Não sei se foi porque o tema me fascina, ou porque a guia era divertida, havia vivido durante o regime soviético, e sabia contar histórias deliciosas – quem me conhece, sabe que eu sou um ótimo ouvinte -, sei que esse foi um dos passeios mais interessantes que já fiz e recomendo fortemente. É fato de que a guia desempenhou um papel fundamental na visita, se tivéssemos por conta própria, sem qualquer explicação, o lugar seria apenas mais um… De qualquer forma, o Hotel Viru & KGB merece cinco estrelas na minha escala! Foi uma surpresa, pois quando aguardávamos os demais membros do grupo, sentados no lobby do hotel, só nos passava pela cabeça os dizeres piège à touristes, tourist trap… Não foi mesmo!

Na prática

O Hotel Viru fica nas imediações da Cidade Velha, perto da Porta Viru, na cidade baixa. Não tem como não vê-lo. É uma região bem mais movimentada da cidade do que aquela em que ficamos hospedados, mas acho que o hotel pode ser uma boa opção também para hospedagem.

Para visitar o museu, peça para a recepção do hotel em que você ficar hospedado reservar uma vaga em um dos horários de visita (os lugares são limitados, pois os grupo são pequenos), ou escreva para o e-mail viru.reservation@sok.fi. As visitas duram uma hora e funcionam todos os dias de 11:30 a 14:30, em diversos idiomas. Sejam pontuais!

Chegando ao hotel, dirijam-se ao fundo do lobby. Existe um guichê específico para a visita do museu e, perto da hora do seu tour vai aparecer o guia que os levará à visita.

No prédio do hotel também funciona um shopping center, que vocês podem usar para matar tempo.

Se precisarem ir ao toalete, dirijam-se ao bar que fica no térreo, do lado direito do guichê do museu, e peçam a chave eletrônica.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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