São Petersburgo – Suas famosas “Catedrais” – Parte I

É proposital a utilização das aspas envolvendo o termo catedrais no título deste post.

Como todos sabem, durante o período soviético, qualquer forma de manifestação religiosa não era vista com os melhores olhos pelo Estado comunista. Contrariamente ao que propagam por aí, a religião em si não era proibida, mas o proselitismo religioso o era – sábios comunistas, compartilho da ideia de que deve haver liberdade religiosa, mas que o proselitismo e as insuportáveis tentativas de evangelização alheia deveriam ser punidas criminalmente!

Desta forma, na URSS, em tese, uma pessoa poderia muito bem seguir a sua religião, frequentar os cultos em sua igreja, em sua sinagoga, em sua mesquita… Na prática a história não era tão simples assim…

Aos olhos do Partido, se um indivíduo resolvesse frequentar um templo religioso, das duas uma, ou ele estava procurando consolo para alguma mazela ou reclamação em sua vida, ou querendo agradecer alguma dádiva divina. Na primeira hipótese, se você possuísse algo do que se queixar, era porque você estava descontente com a sua vida e, via de consequência, com o próprio regime estatal; já na segunda hipótese, qualquer benefício jamais poderia ser atribuída ao divino, mas sim ao Estado, que supria os seus cidadãos de todas as suas necessidades. Em suma, em qualquer das situações, o indivíduo que fosse rezar em algum local público poderia ser considerado antirrevolucionário, ou até mesmo espião, e, no mínimo, perder qualquer tipo de privilégio ou de benefício de que usufruísse, podendo ser obrigado a fazer “visitinhas” aos quartéis generais da Tcheka – e depois da KGB – com vistas a um futuro passeio na Sibéria, na famosa “rede de hotéis” gulag. E nesse ponto cabe contar uma história.

Nossa guia em Moscou nos narrou um caso bastante interessante e também absurdo envolvendo algo que poderia ter conotação de prática religiosa. Quando ela cursava a faculdade, nos anos 70, após uma aula de educação física, quando as alunas estavam trocando de roupa no vestiário, percebeu-se que uma delas carregava em seu pescoço um cordão com um pingente de cruz. Alguém delatou e a moça foi chamada para prestar explicações perante os órgãos superiores da universidade. É importante consignar que estamos falando da Universidade Estadual de Moscou, a Universidade Lemonosov, a escola de ensino superior mais antiga da Rússia, fundada pela czarina Elizabeth Petrovna, no século XVIII, de excelência reconhecida internacionalmente. Acredito que esta moça deva ter passado por maus bocados e, principalmente, ter vivido situações apavorantes. Pasmem, ela acabou sendo expulsa da instituição! A guia não soube dizer o que lhe sucedeu nos anos seguintes.

Nesse contexto, boa parte das igrejas que permaneceu de pé – os soviéticos também demoliram diversos templos religiosos, tal qual os fundamentalistas islâmicos fizeram no Mali, no Afeganistão…, a diferença é que os comunistas ainda possuíam algum senso na preservação histórica, eram pessoas bem mais instruídas, e a destruição das igrejas e templos tinha uma conotação bem mais política, mas igualmente imbecil – foram legadas aos mais diferentes usos: viraram rinque de patinação, piscinas públicas, cinemas, armazéns, necrotérios…

Só que esta política antirreligiosa do Estado não foi totalmente eficiente, pois, aparentemente, a maior parte da população russa atual se diz ortodoxa. Em termos de ranking religioso, a igreja ortodoxa russa está em primeiro lugar seguida pelos ateus e depois, em bem menor percentual, pelos muçulmanos.

Esta não tão breve introdução (quando vou aprender a não ser prolixo?) serve para esclarecer que algumas das catedrais que descreverei aqui viraram museus durante os tempos da URSS e assim permanecem.

Outro aspecto importante de se notar é que as igrejas de São Petersburgo não são igrejas ortodoxas russas típicas, com o exterior simples, pouca iluminação e com o interior ricamente pintado de afrescos. Não, as catedrais e igrejas petersburgenses são bem mais no estilo ocidental. Igrejas russas típicas nós vimos em Moscou.

Queria fazer um post só, mas como, para variar, ficou gigante, e o upload de fotos para o blog é lentíssimo e muito chato, achei preferível dividí-lo em duas partes.

Catedral de São Nicolau dos Marinheiros

Esta igreja foi dedicada a São Nicolau – oi, Papai Noel! -, que é o santo protetor dos marinheiros. Na realidade, trata-se de um santo de intensa devoção pelos ortodoxos russos. Nós encontramos suas iconostases por todas as igrejas em que pusemos os pés no país. Era também a igreja preferida dos marinheiros. Ela é datada do século XVIII, sendo projetada por um discípulo do arquiteto Francesco Bartolomeo Rastrelli (o preferido das imperatrizes Anna Ioannovna e Elizabeth Petrvovna), cujo legado se encontra difundido por toda São Petersburgo e  por seus arredores.

Atualmente, a igreja funciona para cultos e foi das poucas que nunca interrompeu os serviços religiosos durante os tempos da União Soviética.

Ela fica ao Sul da região central de São Petersburgo, no bairro Mariinsky – ao lado do Teatro Mariinsky (o famoso teatro imperial que, nos tempos soviéticos foi renomeado Kirov, em homenagem ao líder do Partido Comunista na cidade de Leningrado, Serguei Kirov, e cuja companhia de ballet foi a responsável por revelar ao mundo os talentos dos bailarinos Nureyev e Baryshnikov).

Seu interior é todo decorado de pinturas e de dourarias, possuindo duas capelas, uma no rés do chão e a outra no primeiro andar (infelizmente as fotografias são proibidas). Segundo o que nos foi esclarecido pela guia, a capela superior só é aberta em dias festivos. Nós só tivemos acesso ao térreo, onde, inclusive, estava sendo celebrada uma missa, toda cantada, com cantoras afinadíssimas, uma grata surpresa para mim, que esperava um “lá-lá-lá” por beatas desafinadas, como acontece nas igrejas católicas aqui no Rio… O serviço completo dura duas horas, óbvio, que não permanecemos esse tempo todo… Em Riga, na Catedral Ortodoxa, também assistimos a uma parte de uma missa, cujos cânticos também eram belíssimos e muito bem entoados. Vale muito à pena assistir a um serviço religioso ortodoxo russo.

O dia estava chuvoso e nós fomos de carro com a guia, mas não é impossível de se chegar à igreja a pé, a partir do Nevsky Prospekt, ou de metrô (estação Sennaya Ploschad), em ambos os casos após uma caminhada considerável.

Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Torre do sino, Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Torre do sino, Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Vista do outro lado do Canal Griboyedova para a Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Vista do outro lado do Canal Griboyedova para a Catedral de São Nicolau dos Marinheiros, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaac

Localizada no mesmo bairro do hotel, Admiralteskaya, no final da rua, a Catedral de Santo Isaac. Esta igreja, para mim, é o símbolo de São Petersburgo (além do o prédio do Estado Maior). Explico o porquê. Sua enorme cúpula dourada é avistada de diversos pontos da cidade, inclusive, quando nós estávamos saindo da estrada e entrando num dos freeways que cercam a antiga capital dos czares. É possível avistá-la a quilômetros de distância.

Catedral de Santo Isaque avistada da portaria do hotel Petro Palace, rua Malaya Morskaya, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaac avistada da portaria do hotel Petro Palace, rua Malaya Morskaya, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo, vista do Café e Confeitaria Schastye, Malaya Morskaya ulitsa, São Petersburgo.

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo, vista do Café e Confeitaria Schastye, Malaya Morskaya ulitsa, São Petersburgo.

Se você tiver pouco tempo em São Petersburgo – o que é algo para se lamentar, diga-se en passant – e precisar escolher uma atração para visitar, eu ficaria em dúvida entre esta catedral e a Catedral de São Salvador sobre o Sangue Derramado, deslumbrante também!

Ela foi comissionada pelo czar Alexandre I a um francês, chamado Montferrand, no início do século XIX, para celebrar a vitória russa contra o imperador da França, Napoleão I, na Primeira Guerra Patriótica. Ela demorou mais de 40 anos para ser edificada, e os trabalhos terminaram já sob o reinado do czar Nicolau I, na segunda metade do século XIX.

Seu projeto foi inspirado na Basílica de São Pedro do Vaticano, sendo que a sua cúpula é a terceira maior da Europa, atrás apenas da Santa Sé e da Catedral de São Paulo, em Londres. Pelo método comparativo que me é peculiar para avaliar o meu apreço por qualquer coisa, colocaria a Catedral de Santo Isaac em pé de igualdade com a Basílica de São Pedro em termos de beleza, ambas a anos-luz de distância na frente da catedral londrina (na verdade, eu acho Saint Paul’s um embuste, paga-se uma fortuna, cerca de 15£, para ver uma igreja bonitinhazinha, mas nada demais). Ela é a maior igreja de São Petersburgo tanto em número de fiéis (nesse quesito, acho que é a maior da Rússia), quanto em área construída.

Suas colunas de granito foram edificadas em um único bloco de pedra: incrível! No seu interior mostram-se os aparatos que foram utilizados para elevar cada uma das colunas!

Durante o período comunista, ela foi transformada no Museu da Religião e do Ateísmo; sob sua cúpula foi instalado um pêndulo de Foucault. Apesar de eventualmente abrigar serviços religiosos, ela ainda permanece como museu.

A nave é de cair o queixo, toda decorada com mármores, mosaicos e malaquitas. Os afrescos do teto da catedral, inclusive a cúpula, foram pintados pelo pintor russo Karl Bryullov, cuja pintura “Os Últimos Dias de Pompéia” é uma das vedetes do fabuloso Museu Russo (que será abordado em uma futura postagem). Vejam as fotos:

Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Cúpula pintada por Karl Bruyllov, Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Cúpula pintada por Karl Bruyllov, Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Vista para o altar, Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Vista para o altar, Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Uma das três portas do altar, Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Uma das três portas do altar, Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Uma das três portas do altar, Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Uma das três portas do altar, Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Mosaico ornamentando o altar da Catedral de Santo Isaque, São Petersburgo

Mosaico ornamentando o altar da Catedral de Santo Isaac, São Petersburgo

Que lugar mais lindo!!!!!

Na próxima publicação, escreverei sobre a Catedral da Ressurreição de Cristo, mais conhecida como a Catedral de São Salvador sobre o Sangue Derramado, sobre a Catedral de Smolny e sobre a Catedral de Kazan.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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