Pushkin (Tsarskoye Selo) – Palácio da Catarina

Após um “inverno” de 12 dias fora do blog, retorno ao meu atual passatempo predileto.

Além do Peterhof, nos arredores de São Petersburgo, se encontram uma série de residências palacianas que foram utilizadas pela nobreza czarista durante o período do Império Russo em que São Petersburgo foi sua capital. Dentre eles, destaca-se o chamado Palácio da Catarina (Екатериский Диорец – “Yekaterinsky dvorets”), situado na cidade de Pushkin (Пушкин), ao Sul de São Petersburgo.

Aquela cidade foi conhecida durante a maior parte do período imperial, pós transferência da capital de Moscou para Piter, pelo nome de Tsarskoye Selo (Царское Село), que significa “aldeia dos czares” em russo. Não é para menos, em seu território, além do Palácio da Catarina, encontra-se, dentre outras “taperas” da nobreza russa, o Palácio do Alexandre (Александровский Дворец – “Alexandrovsky dvorets”), que foi a residência favorita do Nicolau II, o último czar. Infelizmente, não deu para visitá-lo.

Assim como o Peterhof, conhecer o Palácio da Catarina (nos guias, está sinalizado como Palácio de Catarina, mas como eu não nasci em Niterói, prefiro usar a contração da preposição “de” com o artigo definido feminino “a”, peço desculpas aos amigos e leitores que moram “do outro lado da poça” – rsrsrsrsrs) era um dos meus principais objetivos quando viajei para a Rússia. Por isso, estava totalmente fora de cogitação  não visitá-lo. Como havia lido nos guias que o palácio ficava sempre muito cheio e o mesmo blá-blá-blá de sempre de que há um número limitado de ingressos por dia, fora que é quase unânime a impressão dos turistas de que o seu acesso é complicado para quem não fala russo, complicando sua visita “independente”. Com base nesta realidade funesta, e para evitar qualquer tipo de contratempo, nós reservamos o passeio direto pela agência brasileira e fomos acompanhados pela excelente guia francófila Marie Krasnitskaya, indicada pela agência Tchayka.

Abordando um pouco a história do lugar – e como instrumento para apagar qualquer espécie de influência que a época do Império ainda pudesse exercer sobre a população -, durante o período soviético, a cidade de Tsarskoye Selo teve seu nome alterado para Pushkin. Para quem não conhece, Alexandre Pushkin é considerado o principal poeta russo e, junto com Lemonosov, é reputado com um dos pais da língua russa moderna. Apesar de ser moscovita, Pushkin passou grande parte de sua vida na cidade de São Petersburgo, onde faleceu, vítima do duelo com o o nobre francês Georges d’Anthès, que havia cortejado a sua esposa. No mais, a antiga capital imperial foi ambiente de várias de suas obras. Como o escritor estudou durante muito tempo no Liceu Imperial de Tsarskoye Selo, os soviéticos entenderam por bem rebatizar a cidade em sua homenagem.

Estátua de Alexandre Pushkin - Pushkin, Federação Russa

Estátua de Alexandre Pushkin – Pushkin, Federação Russa

Contrariamente ao que se pode acreditar, o nome Palácio de Catarina não está, em princípio, ligado à figura da Imperatriz Catarina II, a Grande. Na verdade, a construção do castelo está relacionada com a czarina Catarina I, mulher de Pedro I, o Grande. Foi esta rainha que determinou a construção de uma residência nos arredores da capital, no início do século XVII. Entretanto, a história do palácio está mais ligada à vida de sua filha, a Imperatriz Elizabeth Petrovna, que contratou o famoso arquiteto Francesco Bartolomeo Rastrelli, para embelezar e aumentar as proporções de sua residência de verão.

Palácio da Catarina - Puskin - Rússia

Palácio da Catarina – Puskin – Rússia

Palácio da Catarina - Pushkin - Rússia

Palácio da Catarina – Pushkin – Rússia

Palácio da Catarina - Pushkin - Rússia

Palácio da Catarina – Pushkin – Rússia

Catarina II, a Grande, não se interessava muito pelo palácio, porque ela considerava o estilo barroco rococó démodé. Ela está mais ligada à cidade por ter mandado construir o Palácio de Alexandre, que ela presenteou ao seu primeiro e favorito neto, o tsarevitch Alexandre, futuro czar Alexandre I.

Outro fato interessante de ser comentado é que existe uma predileção das pessoas na figura de Catarina II, a Grande (na verdade, ela media cerca de 1,65m, e era considerada alta para a época). Nada contra ela, em princípio, mas eu tenho a impressão de que foi uma mulher bastante nefasta. Ela era alemã, casou-se com o czar Pedro III, a quem ela odiava, tramou o seu assassinato para chegar ao trono, detestava o filho (o futuro czar Paulo I, o que tem cara de ET)… Mulheroca da braba! Muito mais interessante, no meu ponto de vista, era a Imperatriz Elizabeth Petrovna, uma mecenas, déspota esclarecida, aboliu a pena de morte no Império Russo (que depois foi reinstaurada, salvo engano por Catarina II, a Mulheroca)…

O museu estava muito cheio! Hordas de turistas chatos em grupos enoooooormes de chineses, que abarrotavam todas as salas num empurra-empurra de deixar Versailles parecendo uma cidade fantasma de tão calma. Para vocês terem uma ideia da quantidade de gente no lugar, as babushkas (vovós, bem chatas e ranzinzas que fazem o controle dos visitantes) só deixam um determinado número de pessoas entrar em cada sala e ficam regulando o tempo que cada um fica lá dentro. Várias vezes, nesse passeio, a nossa guia teve que se impor com as velhotas que queriam nos expulsar das salas, foi engraçado!

Contrariamente ao que acontece em Peterhof, o principal atrativo do Palácio da Catarina são seus interiores ricamente decorados. Por este motivo, e aliado ao dia, que estava chuvoso (o que em São Petersburgo não significa muita coisa, pois o clima é temperamental e pode mudar a qualquer momento), dava a impressão de superpopulação no museu, uma verdadeira Índia. A “vantagem” é que se pode tirar fotografias em seu interior. Ei-las!

Escada Rastrelli - Palácio da Catarina - Rússia

Escada Rastrelli – Palácio da Catarina – Rússia

Escada Rastrelli - Palácio da Catarina - Pushkin

Escada Rastrelli – Palácio da Catarina – Pushkin

Nas fotos abaixo, dá para se notar a “assinatura” do Rastrelli no projeto da Grande Sala. Sua característica principal é o uso de uma fileira de janelas acima das portas (próxima ao teto) e o uso abundante de dourarias.

Grande Sala - Palácio da Catarina - Pushkin

Grande Sala – Palácio da Catarina – Pushkin

Grande Sala (detalhe) - Palácio da Catarina - Pushkin

Grande Sala (detalhe) – Palácio da Catarina – Pushkin

A grande estrela do Palácio é a sala decorada inteiramente com placas de âmbar, na cor caramelo – fotografias terminantemente proibidas no recinto. O âmbar é encontrado em profusão na costa do Mar Báltico e serviu de elemento para a composição interna da sala. É impressionante! Aparentemente os nazistas, antes de destruírem o palácio, tal qual fizeram com o Peterhof, desmontaram as placas de âmbar que ornavam o ambiente e levaram para a Alemanha. Elas nunca foram reencontradas e a Alemanha nega que elas estejam em seu território. Então, quando da reconstrução do palácio, logo após o final da II Guerra, esta sala demorou a ser reaberta ao público, devido as disputas com a Alemanha para reaver as placas de âmbar em, quando os russos desistiram daquela empreitada, ante a complexidade dos trabalhos. Mais uma vez, tiro o meu chapéu para os restauradores russos! Trabalho primoroso! A minha admiração pelo país e pelo povo só aumenta!

Sala Âmbar - Palácio da Catarina - foto extraída do site http://en.m.wikipedia.org/wiki/Amber_Room

Sala Âmbar – Palácio da Catarina – foto extraída do site http://en.m.wikipedia.org/wiki/Amber_Room

As cozinhas nos palácios russos ficavam fora do edifício principal de modo a evitar que o cheiro ruim se propagasse pelas áreas mais nobres da residência. Nesse diapasão, a comida era toda servida em pratos equipados com poderosos réchauds individuais, hábeis a permitir o não resfriamento da comida, principalmente durante o tenebroso inverno russo.

Sala de Jantar dos Cavaleiros - Palácio da Catarina - Pushkin

Sala de Jantar dos Cavaleiros – Palácio da Catarina – Pushkin

Reparem, também, no chauffage ao fundo, feito no estilo holandês, em clara homenagem ao gosto do czar Pedro I, o Grande. Na verdade, praticamente todos os aquecedores do palácio foram decorados desta forma:

Sala Verde - Palácio da Catarina - Pushkin

Sala Verde – Palácio da Catarina – Pushkin

Palácio de Catarina - Pushkin

Palácio de Catarina – Pushkin

Objeto decorativo confeccionado na técnica de "bola de neve" - Palácio da Catarina - Pushkin

Objeto decorativo confeccionado na técnica de “bola de neve” – Palácio da Catarina – Pushkin

Detalhe da decoração do teto - Palácio da Catarina - Pushkin

Detalhe da decoração do teto – Palácio da Catarina – Pushkin

Peço desculpas porque as fotos não estão lá grandes coisas e nem fazem jus à beleza do lugar. Como já expliquei, eu tenho por hábito comprar guias de museus, então, realmente as fotografias nesses locais acabam tendo um papel secundário.

Peterhof possui jardins à la française (geometricamente desenhados, ornados de fontes e canteiros de flores milimetricamente projetados…), no meu ponto de vista, os jardins do Palácio da Catarina apesar de seguirem mais ou menos o mesmo estilo, têm uma influência dos chamados jardins à l’anglaise, que são bosques onde se pode passear, sem uma preocupação estética tão arraigada, os canteiros são menos projetados, é um modelo um pouco mais livre.

Galeria de Cameron - Palácio da Catarina - Pushkin

Galeria de Cameron – Palácio da Catarina – Pushkin

Galeria de Cameron vista do Pavilhão da Gruta - Palácio da Catarina - Pushkin

Galeria de Cameron vista do Pavilhão da Gruta – Palácio da Catarina – Pushkin

Pavilhão da Gruta - Palácio de Catarina - Pushkin

Pavilhão da Gruta – Palácio de Catarina – Pushkin

Banhos Turcos - Palácio da Catarina - Pushkin

Banhos Turcos – Palácio da Catarina – Pushkin

De um modo geral, nós tendemos a imputar à opulência das cortes absolutistas como a principal causa para a ocorrência das revoluções. Quem nunca ouviu dizer que a vida frívola, fútil e opulenta da Maria Antonieta foi a causa da Revolução Francesa? O mesmo se diz em relação à Revolução Bolchevique, por conta da vida abastada dos czares em contraposição à pobreza da população. Pois é, essa afirmativa tem que ser relativizada.

Se por um lado, é óbvio que os gastos das famílias reais eram absurdos, eles por si sós não levaram à eclosão de nenhuma revolução. Fora a evidente má gestão pública, toda revolução geralmente está diretamente vinculada a um período de fome, resultante de safras insuficientes em virtude de problemas climáticos, além de períodos de guerra. Ouso dizer, e peço que me corrijam se eu estiver equivocado, que o fator preponderante para a Revolução Francesa foi o auxílio prestado pela França na Guerra de Independência Americana. Muito dinheiro foi direcionado para equipar o exército francês que lutou na região, situação agravada por um rigoroso inverno que assolou a Europa na Ocasião. Os gastos da Maria Antonieta eram ínfimos em relação às despesas estatatais…

O mesmo ocorreu na Rússia pré-Revolução. Ainda que o czar Nicolau II seja considerado como o monarca mais rico que já governou na Europa, as despesas dos Romanov não eram o real problema. Havia efetivamente uma incompetência do czar como Chefe de Governo, mas também as finanças imperiais degringolaram por conta da Guerra do Japão, declarada pela Rússia e que tinha por objetivo a expansão territorial do Império Russo (megalomania) e afirmar sua influência na região da Manchúria, na China. Práticas agrícolas antiquadas, sistema de servidão e necessidade de alimentar as tropas acabaram gerando fome e um caos na economia, ambiente perfeito para a revolução.

Então, não adianta culpar os Palácios de Versailles, de Fontainebleau, de Peterhof ou da Catarina pelos levantes do povo.

  Palácio da Catarina – Informações Práticas

O link acima dá acesso ao site do museu. Como já esclarecido no post sobre Peterhof, sugiro que acessem a versão russa da página e façam a tradução automática pelo Google Chrome. As informações em russo costumam ser melhores.

Para quem quer fazer o passeio de forma independente, segundo o Lonely Planet, basta dirigir-se à saída da estação de metrô Moskovskaya indicando “buses to the airport” (aproveitem para ver o monumento construtivista soviético em homenagem aos Heroicos Defensores da Cidade de Leningrado e o Palácio dos Sovietes, que ficam nas imediações) e pegar as mashrutkas (uma espécie de micro-ônibus) nº 286, 299, 342 ou K545 – eu aconselharia a se informarem melhor no hotel – e pedir para saltar na estação R30 (Pushkin).

Também é possível ir de trem, pela estação Vitebsky, descendo na estação Detskoe Selo (Детское Село), mas aparentemente estes trens não são regulares, exceto nos fins de semana. Eu não arriscaria.

Não me arrependo mesmo de ter feito esse passeio já programado com a agência. Vocês podem tentar com uma agência local. A Anna Rudaya pode organizar esse programa para vocês.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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4 respostas para Pushkin (Tsarskoye Selo) – Palácio da Catarina

  1. Maria disse:

    Gostava de saber quanto tempo demora a viagem a Pushkin, mais a visita ao palácio de Catarina, desde São Petersburgo.
    Muito obrigada.
    Maria

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  2. Ana Paula Carmona disse:

    Li o seu texto todo sobre o Palacio da Catarina. Muito bom e muito conhecedor. As fotos até estão otimas. Estive lá á cerca de 1 mês e adorei. Valeu bem a visita. Acabei por entrar aqui através da foto do Alexandre Puskin no banco do jardim, e fiquei até ao fim. Vou adicionar o seu blog á minha lista de favoritos. Obrigada

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