São Petersburgo – Ópera, concertos, afins e considerações sobre o turismo na Rússia

Turismo na Rússia

Antes de viajar para o país de Dostoiévski, li diversos blogs que contaram histórias desanimadoras a respeito da infraestrutura para o turista estrangeiro que decide dar uma conferida na antiga terra dos czares.

Todo mundo dizia que não se falava inglês em lugar nenhum, que todas as placas indicativas de rua e de informações eram redigidas em cirílico, que o povo não tem boa vontade… Bom, essas informações têm realmente um fundo de verdade.

Acho complicado ir a qualquer lugar da Rússia sem pelo menos aprender a transliterar o cirílico escrito em caracteres de imprensa (a escrita cursiva em russo é uma confusão para quem só se comunica no alfabeto latino, por exemplo, o “g” minúsculo, conforme escrevemos em letra cursiva, tem som de “d”; o “m” minúsculo tem som de “t”, und so weit… Não sei se esse tópico merece um post específico).

Por outro lado, as pessoas têm um semblante realmente mais sisudo, mas não achei ninguém especialmente rude (parisienses, espanhóis em geral, italianos do sul e novaiorquinos podem ser muito mais grosseiros, na minha opinião). Inclusive, se você conseguir se aproximar mais um pouco das pessoas, sentirá povo sinceramente caloroso, não no sentido brasileiro da palavra, mas na certeza de que ninguém irá escorraçá-lo, as pessoas terão boa vontade e estarão dispostas a lhes ajudar a despeito de uma eventual barreira do idioma. Em Berlim, cidade pela qual me apaixonei, por exemplo, não tive essa sensação. A funcionária da estação de trem na Friederichstraβe (que fica no centrão turístico e ao mesmo tempo chique da capital alemã) ao ser indagada: “Sprechen Sie Englisch? Franzözisch? Portugiesisch?”, haja vista que os meus conhecimentos na língua de Schiller não são tão aperfeiçoados assim, disse prontamente: “nur Deutsch” e começou a falar no dialeto de Berlim! Além da cretinice, dificultou bastante a compreensão do que ela dizia, pois nem o alemão padrão (Hochdeutsch) ela se dignou a falar. Velhota!

Este eventual desconforto é bem mais atenuado em São Petersburgo e acentuado em Moscou. Na antiga capital imperial, o metrô, as placas das ruas e aquelas indicativas na maioria dos museus estão também dispostas em alfabeto latino e há informações em inglês bem difundidas. Se por um lado, a ideia de que o inglês é o verdadeiro “Esperanto” me irrita magistralmente (é estarrecedor como os falantes nativos de língua inglesa não fazem um mínimo de esforço para aprenderem o básico do idioma do país que eles estão visitando, fora que, num futuro distante, acredito que o mundo inteiro só falará inglês, o que será uma falta de graça…), por outro lado tenho que reconhecer que isto facilita a vida do estrangeiro. Em Piter, nós encontramos pessoas que falavam – muito bem, por sinal – francês. Acho que o espírito do czar Pedro I, o Grande, realmente se incorporou na alma da cidade, pois, nesse sentido, ela é bem mais cosmopolita do que Moscou.

Já, em Moscou, a situação é bastante diversa. Nenhuma das placas está redigida em alfabeto latino. Quase ninguém fala inglês. As indicações de passagens subterrâneas, mandatórias para atravessar as grandes avenidas e bulevares que não têm sinal de trânsito, também não são tão visíveis ou evidentes. Para se ter uma noção do problema, nós fomos passear pela rua Arbat (улитса Арбат / úlitsa Arbat) – lugar realmente desinteressante, marcamos um “x” vermelho no mapa para não voltarmos (deixo as impressões para outro post) – e, como nenhum estabelecimento de cozinha russa nos parecia convidativo para tomar um lanchinho, resolvemos parar na loja da rede Le Pain Quotidien, certos de que ali encontraríamos alguém que se comunicasse em inglês… Ledo e caterino engano! O garçom e a garçonette que nos atenderam eram lindos, se fossem mais altos, pareceriam saídos das passarelas da Fashion Week de Paris, mas não falavam uma única palavra que não fosse em russo. Havia o cardápio em inglês, mas, como eles não conseguiam entender o que dizíamos, nós tínhamos que apontar o que queríamos no cardápio em russo, no local onde acreditávamos que estava escrito o que pretendíamos consumir, comparando com a disposição dos pratos no menu em inglês. Deu tudo certo, mas escolher o chá, por exemplo, foi difícil. Acabamos pedindo Coca Light e coffee mit malacó, ou seja, café com leite, numa mistura de inglês, alemão e russo (por que usamos o idioma mais difícil que sabemos, quando nos deparamos com uma língua desconhecida? Idiota, né). Ressalto que no próprio aeroporto de Sheremtievo a língua inglesa não é tão difundida entre os funcionários.

O ideal seria ter noções básicas de russo antes de viajar. No Rio de Janeiro, o Centro de Cultura Eslava ministra cursos de língua russa. O curso é excelente e tem uma ótima relação custo / benefício. Eu comecei a aprender o idioma após retornar da Rússia e posso garantir que, com os primeiros dois meses de curso, você consegue se virar com o básico do básico do idioma: entenderá palavras simples, saberá contar e, principalmente, conseguirá ler o russo, o que facilitará a sua vida nos deslocamentos internos e em perrengues com menus de restaurantes.

Outra dica, que já dei em vários posts anteriores, é o de sempre acessar a versão russa de qualquer site das atrações que você pretenda visitar. Use a ferramenta do Google Chrome para traduzir e, com um certo jogo de cintura, você conseguirá obter as informações de que necessita. As versões inglesas dos sites, quando existem, não são completas ou não são regularmente atualizadas.

O que relatei acima – e que será complementado abaixo – não é muito diferente do que acontece no Brasil. A infraestrutura turística aqui é pífia, as pessoas falam mal inglês, quando falam (já entrevistei vários candidatos a emprego que colocavam inglês fluente no curriculum e que não conseguiam falar nada, algo extremamente “queima filme”, por sinal), há poucas informações em qualquer outro idioma diferente do português… Isso sem falar de questões envolvendo corrupção, problemas com direitos sociais, concentração de riqueza… Brasil e Rússia têm muito mais semelhanças do que numa visão perfunctória podemos notar.

Ópera de São Petersburgo

Todo esse introito serviu para esclarecer que foi bastante complicado comprar ingressos para espetáculos de música erudita na Rússia.

Em primeiro lugar, uma busca no Google não é suficiente para mostrar todas as opções que existem na cidade. Obviamente, que chegar ao site do Teatro Mariinsky (durante a URSS foi conhecido como Kirov) não é muito difícil… No nosso caso, infelizmente não conseguimos conhecê-lo porque não havia nenhuma apresentação que particularmente nos interessasse no período em que ficamos em São Petersburgo (só haveria uma récita de uma ópera contemporânea, “The Left-hander”, do compositor Rodion Shchedrin, na nova sala do Mariinsky – tanto a ópera quanto a sala são recentes, o que poderia ser interessante, mas não era exatamente o que nós tínhamos em mente). Ir ao Mariinsky é um dos motivos para voltar rapidamente a São Petersburgo.

Nessas buscas na internet, achei um site genérico, que mostrava várias salas de espetáculo e propunha várias apresentações. Óbvio que parecia algo tabajara, tanto que não postarei o link aqui, mas serviu de norte para descobrir que, em princípio, o Concerto nº1 de Tchaikovsky, para piano e orquestra, e o Concerto nº 2, de Rachmaninov, também para piano e orquestra seriam apresentados na D.D. Shostakovich Saint Petersburg Academic Philarmonia,   que fica do lado do hotel em que nos hospedamos. Como era de se esperar, o site em inglês da orquestra também não era lá grandes coisas e não consegui me virar por lá.

Nesse ponto, eu comecei a me corresponder com a futura guia, Anna Rudaya, que me auxiliou bastante e me garantiu que os almejados concertos, na Filarmônica, não iriam acontecer, mas para isso ela teve que ligar para lá (a versão russa do site também é cocozenta). Ela fez a gentileza de me enviar o link das mais importantes salas de espetáculo da cidade, além das que eu já citei. Вот (“vot” / ei-los, em russo)!

Teatro Mikhailovsky

Ópera de São Petersburgo

Teatro do Hermitage

O período em que estivemos na cidade, na semana de um dos principais feriados russos, o dia 09 de maio, data da capitulação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, é péssimo para concertos, pois a maioria das salas ou está em entressafra, ou apresenta récitas de cunho militar e patriótico (o que pode até ser interessante, mas em um outro momento). Por conta dessa situação, os espetáculos de interesse se limitaram à Ópera de São Petersburgo e ao Teatro do Hermitage (que, aparentemente, apresenta os ballets do Tchaikovsky ininterruptamente). Como acreditamos, equivocadamente, diga-se de passagem, que o Hermitage seria um piège à touristes, nos concentramos na Ópera de São Petersburgo, onde estaria em temporada um das obras de que mais gosto (se não for a minha predileta), que é “Don Giovanni”, do Mozart.

Aí, seguiu a maratona para comprar ingressos. Eu conseguia entrar no site, cadastrava-me, selecionava os assentos, preenchia os dados do cartão e, toda hora, dava um erro inidentificável. Para complicar, a cada vez que retornávamos ao site os ingressos anteriormente “comprados” apareciam como indisponíveis. Tentamos umas 3 ou 4 vezes, com cartões de titulares diferentes e nada. Fora que ficamos no perrengue de sermos cobrados por todas as tentativas.

A solução que encontrei foi a de comprar via Concierge do hotel. Pagamos uma taxa de 500 rublos pelo serviço e funcionou. Não me arrependo. Acredito que a Anna Rudaya possa providenciar a compra de bilhetes.

A Ópera de São Petersburgo fica na úlitsa Galernaya, nº 33, no bairro de Kolomna. Como o acesso por transporte público n’était pas du tout évident, resolvemos sair bem mais cedo e nos dirigimos andando desde o hotel. Não é uma caminhada particularmente agradável, tem poucos lugares no caminho para parar. Apesar da cidade ser bonita, e o bairro ser chique, as ruas estavam vazias devido ao feriado, festa e bebedeira do dia anterior, o que deixou o passeio um pouco fantasmagórico. Inclusive levamos um susto, já estávamos na úlitsa Galernaya, quando vimos uns soldados saindo marchando de uma porta, out of the blue. Vale à pena pedir um táxi no hotel.

O lugar onde está o teatro é um prédio antigo – aparentemente era um palácio de um nobre. Por fora, é bonito, mas não aparenta ser um teatro. Podia ser qualquer coisa: a casa da vovó Svetlana, o quartel general da máfia russa, um posto avançado da KGB… O interior já muda de figura. A sala é linda, toda branca, com dourarias sutis, excelente acústica. Detalhe para o foyer que lembra uma caverna (de gosto duvidoso):

Ópera de São Petersburgo - Foyer

Ópera de São Petersburgo – Foyer

Ópera de São Petersburgo - boca de cena

Ópera de São Petersburgo – boca de cena

Ópera de São Petersburgo - Boca de cena - Detahe

Ópera de São Petersburgo – Boca de cena – Detahe

Ópera de São Petersburgo - Escultura do teto da sala

Ópera de São Petersburgo – Escultura do teto da sala

Ópera de São Petersburgo - Porta Lateral

Ópera de São Petersburgo – Porta Lateral

Ópera de São Petersburgo - Porta Lateral - Detalhe

Ópera de São Petersburgo – Porta Lateral – Detalhe

Ópera de São Petersburgo

Ópera de São Petersburgo

Ópera de São Petersburgo - sala

Ópera de São Petersburgo – sala

Por fim, um pequeno adendo, os cantores foram ótimos, com especial atenção para quem interpretou a Dona Elvira e o Leporello (gostaria de saber seus nomes). As árias são cantadas em italiano, porém os recitativos foram todos traduzidos para o russo, o que  compromete a compreensão da estória para quem não conhece a ópera (sugiro ler uma sinopse antes do espetáculo). Não adianta comprar o programa, era em russo, por isso não sei o nome dos artistas! Valeu cada centavo!

Deixo os perrengues de Moscou para outro post.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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