Rio de Janeiro – Chateando o Carlos Drummond de Andrade

Os posts  sobre o Brasil já estavam planejados na minha cabeça, mas resolvi dar um hiato nas postagens sobre Moscou para relatar uma singela história que me aconteceu hoje.

Estava no Posto 6, em Copacabana, procurando desesperadamente um espaço no banquinho da praia para poder sentar antes de retornar para casa. Por um milagre da vida, o banquinho em que construíram a estátua do Carlos Drummond de Andrade estava vazio – algo realmente raro. Sabendo que se trata de um “ponto turístico” da orla, eu cogitei sinceramente em procurar outro lugar para descansar as minhas pernas e os meu braços, mas não dava, estava à bout de souffle, parei por ali mesmo.

Carlos Drummond de Andrade - Copacabana - Rio de Janeiro

Carlos Drummond de Andrade – Copacabana – Rio de Janeiro

Não deu um minuto, um grupo de pessoas parou, um rapaz sentou do lado da estátua do poeta e uma das mocinhas que o acompanhava, sapecou uma foto. Logo depois, parou uma moça sozinha, que pediu para eu fotografá-la. Esclareci que não poderia me levantar, mas que não me incomodaria tirar a foto dela (ficou péssima, coitada!) e assim mais três outras pessoas, de diversos Estados da Federação, pararam para registrar seu momento ao lado do poeta, nos menos de 10 minutos que permaneci sentado.

Pois bem, a última mulher que passou foi um pouco mais desagradável e pediu para eu me levantar, o que não fiz, mas cheguei para a ponta do banco. Nisso escutei a companheira de fotografia da “modelo” indagando: “é disso que você quer tirar foto?”. Até então calado estava, mas resolvi fazer a pergunta que sempre passa pela minha cabeça todas as vezes que observo a horda de pessoas fotografando a estátua do Drummond: “Você sabe quem foi o Carlos Drummond de Andrade?”. A “modelo”, com sotaque fluminense, olhou para mim espantado e disse: “era um poeta, claro!”. Ao que eu retruquei: “você conhece algum poema ou sabe recitar um versinho do poeta?”, não obtive resposta. Resolvi seguir meu caminho mas aconselhei-a a ler Drummond e não apenas a fotografá-lo.

Antes que me acusem de esnobismo e elitismo, não sou nenhum expert  em Drummond, li pouquíssimo a sua obra, até porque gosto bem mais de outros poetas brasileiros, mas tenho uma mínima noção do que escreveu. O Poder Público poderia, pelo menos, incentivar as pessoas a conhecerem “Quadrilha” ou “No meio do caminho”, e utilizar o interesse canhestro pela estátua para divulgar a poesia do Drummond. Também não tenho nada contra a estátua (acho uma homenagem simpática ao bairro e ao poeta), só acho ridículo esse rebuliço todo em torno dela, surgido por conta da mídia na época de sua inauguração e enfatizado porque as pessoas gostavam de furtar os óculos da figura retratada. Enfim, como acontece toda hora no Brasil, perde-se uma boa oportunidade de difusão da cultura…

O Rio de Janeiro e seus bairros, inclusive Copacabana, serão objetos de outros posts, apesar do meu atual descontentamento com a cidade…

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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6 respostas para Rio de Janeiro – Chateando o Carlos Drummond de Andrade

  1. Kenia disse:

    Sabe que eu penso o contrario?? Muito ou pouco essa publicidade acaba incentivando as pessoas a quererem saber sim sobre o poeta e sua poesia. Tenho certeza que a “modelo” dos eu post foi procurar em casa algum poema.
    Eu estudei em uma escola tecnica publica do RJ no Ensino Medio e lembro da minha professora de literatura citando a estatua quando liamos seus poemas. Eh verdade que sempre gostei de portugues e literatura o que faz diferenca nas coisas que eu guardei da escola. Mas acredito que existe um esforco, ainda que nao do jeito como gostariamos, para divulgar nossa literatura. Ou talvez eu seja otimista demais…
    Ansiosa pros proximos posts do Rio, adoro descobrir novos cantinhos da cidade!!
    Bjs

    Curtido por 1 pessoa

    • andrerj75 disse:

      Comentário legal, mostrando outro ponto de vista da questão. Mas Kenia, você não se inclui nessa categoria de pessoas que vai tirar a foto com a estátua porque ela apareceu no Jornal Nacional.
      Sério, as pessoas tiram foto beijando a estátua! Eu fiquei com vontade de levar no meu bolso o batom na cor “russian red” e emprestar para as pessoas, antes de elas darem uma bitoca no Drummond. Depois, elas poderiam tirar uma foto fazendo biquinho e com as mãos apoiadas nas bochechas, como a Xuxa (o pior é que eu acredito que nem essa referência elas possuem)…
      Será que a “modelo” foi procurar algum poema do Drummond para ler? Tenho cá minhas dúvidas.
      Um amigo meu criticou esse meu post, dizendo-me que ao viajar pela “Europas”, ele tirou fotos em uma série de estátuas cuja figura retratada ele não tinha a menor noção de quem seria. Eu acho uma situação bem diferente. A minha crítica aqui é para o comportamento da mídia, que divulga muito parcialmente qualquer coisa ligada à cultura.
      Beijão

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      • Kenia disse:

        hahahhaha é que as pessoas sao meio sem noção mesmo!
        Quanto ao seu amigo eu tb acho normal não ter ideia de quem foram a maioria das pessoas figuradas em estatuas no país dos outros, mas quando eh no Brasil eu morro de vergonha!! Pra minha tristeza me acontece de eu ir a outros estados e não ter ideia de quem foram algumas figuras importantes da região, principalmente quando vou pro norte e nordeste. Entendo que o país eh enorme e diversificado, mas acho tão feio não conhecer nossa história e personagens. Acho tb a situaçao que vc retratou neste post bem diferente da do seu amigo.

        Bjs

        Curtido por 1 pessoa

  2. hehehe, eu acho você uma pessoa divertidíssima e muito culta! Continue assim mostrando aos outros que você não é esnobe ou elitista, e sim muito bem educado e inteligente! Adoro! Eu tirei uma foto com o Drummond em 2005 na época estava morando no Rio e já conhecia algumas obras do poeta, ele ainda é um dos meus preferidos! Eu sempre gostei muito do Rio e ficarei encantada em ler os seus posts sobre a cidade! E qual seria esse seu descontentamento pela cidade?

    Beijos.

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    • andrerj75 disse:

      Merci, Flávia.

      Minha decepção com o Rio advém do fato de que ela se tornou uma cidade muito cara, com serviços porcarias e uma qualidade de vida que eu não considero das melhores. Mas essa crítica não recai especificamente sobre o Rio, também tenho achado São Paulo o fim da conta pelos mesmos motivos. A qualidade de vida no Brasil não é boa, tirando mais ou menos o clima, acho que nós que vivemos aqui pastamos demais e pagamos quantias vergonhosas para conseguir coisas mínimas.

      Eu queria ter uma profissão que me prendesse menos aqui.

      Beijos.

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  3. Sergio disse:

    Pois é… Estou em Paris, fui comprar ingresso para uma exposição sobre a Gruta de Lascaux, que é considerada uma obra-prima da pré-história, a “Capela Sistina” em matéria de sítios arqueológicos e de pinturas rupestres, mas as duas funcionárias da FNAC não apenas desconheciam a gruta como não sabiam soletrar o nome, o que eu precise fazer. Isso acontece em qualquer lugar, mesmo em um país no qual a cultura e a história são prioridades evidentes.

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