Moscou – vamos brincar de Pussy Riot?

Fiquei numa tremenda dificuldade em escolher um título para este post. Se, por um lado, eu acho a política autoritária de qualquer religião ou governo algo absolutamente desprezível, por outro, eu gostaria de esclarecer que também não concordo com a forma de manifestação das meninas do Pussy Riot, mesmo que seus ideais possam ser interessantes. Inclusive, na minha opinião, fazer baderna dentro de uma igreja não é dos atos mais maduros… Só que a pena de reclusão que as mulheres receberam pela má conduta foi excessiva, o que as colocou realmente no centro da discussão mundial, com um olhar crítico às liberdades individuais na Rússia, algo que acredito que nem a Igreja Ortodoxa nem o Putin queriam. Mas, viva a “democracia”!

De qualquer modo, eu não poderia deixar de fazer o meu chiste ao relatar a nossa visita à Catedral do Cristo Salvador (Храм Христа Спасителя), a principal do Patriarcado de Moscou e, consequentemente, da Igreja Ortodoxa Russa.

Confesso que, ao planejar a viagem, lendo guias e pesquisando blogs, eu havia colocado um ponto de interrogação nessa atração, pois se trata de uma réplica da igreja original, aí fiquei imaginando algo de gosto duvidoso… Sempre que eu penso em construções religiosas “modernas” me vêm à mente templos cafonas como as catedrais das igrejas evangélicas, a Basílica de Nossa Senhora de Aparecida, as Igrejas da Ressurreição e da Matriz da Nossa Senhora de Copacabana… Mas realmente o que mais adentra o meu pensamento é a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de mesmo nome, no Estado de São Paulo. Igreja enorme, medonha por fora, mas cujo interior me agrada…va, isso, me agradava! Era sóbrio, feito em tijolinhos, sem grandes interesses, mas não agredia os meus olhos. Pois bem, da última vez em que lá estive – e isso deve fazer uns 6 anos pelo menos, ao retornar de um carnaval em Cunha (SP) – eles estavam adornando o interior com uns azulejos de cerâmica laranja, transformando um dos transeptos da igreja em algo que me lembrou um imenso banheiro. Gente! Cadê o bom gosto da Igreja Católica? Deve ter ficado no século XIX…

Ainda bem que estava enganado e que fui visitar a catedral russa.

Catedral do Cristo Salvador - Moscou

Catedral do Cristo Salvador – Moscou

A igreja em si possui uma história bastante interessante e conturbada. Sua construção durou mais de quarenta anos e foi ordenada pelo Czar Alexandre I, em homenagem aos soldados russos mortos na Primeira Guerra Patriótica, vencida contra o Imperador francês Napoleão I, no início do século XIX.

Ela acabou se tornando a maior igreja ortodoxa do mundo – acredito que ainda o seja – e, assim, também um importante símbolo para a Monarquia Absolutista que comandava o Império Russo. Da mesma forma, apesar de a sede do Patriarcado de Moscou ficar, em tese, na cidade de Sergiev Posad (uma das cidades do chamado “Anel de Ouro”, nos arredores da capital, que não deu para conhecer), na prática, o Patriarca comanda sua diocese desta Catedral, transformando-a no centro de fato da religião no país (por isso, inclusive, que o Pussy Riot a escolheu como cenário para as suas estripulias).

Nesse contexto, quando os bolcheviques tomaram o poder, a Catedral do Cristo Salvador acabou se tornando uma espécie de “pedra no sapato” dos líderes comunistas, pois além de ser uma afronta aos ideais ateus pregados pelo regime (amém!), também era uma reminiscência da decadente era imperial. Assim, Taváritch Stalin, em seu plano de reformulação e reestruturação da cidade de Moscou – diga-se de passagem, muito parecido como aquele implementado pelo Hitler para tornar Berlim a Haupstadt des Welt (Capital do Mundo), confirmando a minha ideia de que os regimes totalitários, pouco importando a sua orientação esquerdista ou direitista, se assemelham -, decidiu demolir a catedral, dinamitando-a no início da década de 1930.

Implosão da Catedral do Cristo Salvador - Moscou - início da Década de 1930 - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Cristo_Salvador

Implosão da Catedral do Cristo Salvador – Moscou – início da Década de 1930 – Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Cristo_Salvador

Em seu lugar, ele planejava construir a mais alta das “Sete Irmãs” (os arranha-céus do Stalin, que eu expliquei aqui): o “Palácio dos Sovietes”.

Segundo li, seria uma edifício de mais de cem andares em cujo topo erigiriam uma estátua gigantesca do Lênin (imagino o que não seria!!!!).

Só que esse “sonho” acabou não se tornando realidade. E aqui você encontra várias teorias que justificam o abandono da pretensão megalômana soviética. Pela versão alardeada pelas potências capitalistas, faltou dinheiro aos soviéticos, além de que o processo de modernização de Moscou teve que ser pausado por conta da deflagração da Segunda Guerra Mundial. Já a versão soviética afirma que o terreno escolhido era pouco adequado para a construção do arranha-céu, devido à sua característica pantanosa. Acredito que os três argumentos sejam verdadeiros.

O que não se comenta muito é que, de fato, por conta da Guerra Fria e da ameaça das potências ocidentais – pois é, não eram só os “vermelhos” que impingiam medo ao mundo, convém lembrar (só para dar um exemplo, os EUA posicionaram mísseis nucleares na Turquia, mirando o território russo e ucraniano, o governo americano praticou atos terroristas em Cuba… Não que o governo soviético fosse bonzinho, muito longe disso…, mas vamos tentar ser imparciais) – a URSS se viu obrigada a investir maciçamente na indústria bélica, em detrimento de uma série de outras contingências que poderiam causar mais bem estar à população, inclusive na produção de bens de consumo. Enfim, mas isso é uma outra discussão… O que eu quero dizer é que, independentemente de qualquer convicção política, o povo tem direito à autodeterminação, contanto que não existam abusos, se houve um movimento, uma revolução que modificou o regime político de um determinado país, essa opção popular tem que ser respeitada, o que não ocorre na prática.

Retornando à história, como o arranha-céu não foi edificado, no lugar de suas fundações foi construída a maior piscina pública aberta do mundo, aquecida no inverno (haja coragem!). Essa situação perdurou até a queda do Comunismo, na década de 1990, quando pipocou a ideia de reconstruir a Catedral. Aparentemente havia muita disputas sobre o tema, pois o país passava por uma crise sem precedentes e gastar dinheiro com cultura parecia ser uma ideia idiota – do que eu discordo, como bem enfatizou a nossa guia, problemas sempre existirão e a arte e a cultura são essencialmente supérfluos, então, nunca haverá dinheiro sobrando para essas matérias, então investimentos culturais têm que ser feitos na cara e na coragem mesmo -, por isso foi realizado um plebiscito em que a população votou favoravelmente à reconstrução. Ainda bem!

A Catedral é um esplendor. Toda branquinha, decorada com dourarias e mosaicos. Pelo que contam, ela é idêntica à original! Mais uma vez, meus parabéns para os arquitetos e artistas russos que são os melhores do mundo em termos de reformas e restaurações. Infelizmente, fotografias são proibidas em seu interior.

Catedral do Cristo Salvador - vista da Ponte do Patriarca - Moscou

Catedral do Cristo Salvador – vista da Ponte do Patriarca – Moscou

Catedral do Cristo Salvador - Fachada Norte - Moscou

Catedral do Cristo Salvador – Fachada Norte – Moscou

No plateau da Catedral, você encontra uma vista privilegiada da capital russa.

Vista para uma das "7 Irmãs" - Catedral do Cristo Salvador - Moscou

Vista para uma das “7 Irmãs” – Catedral do Cristo Salvador – Moscou

Da Ponte do Patriarca (Патриарший мост / Patriarchy Most), tem-se a visão para a estátua de Pedro, o Grande, erguida na margem sul do rio Moscou. Nos guias, você lê que este monumento aparentemente é detestado pelos moscovitas, pelo tamanho, por ser de gosto duvidoso (eu achei estranho, mas ok, lembrem-se que eu vivo no Rio de Janeiro, que é famosa pelo Cristo Redentor, a estátua megalômana mais feia do mundo…) e pelo fato de que o czar retratado odiava Moscou. Fiz essa indagação à nossa guia, Elena, que não confirmou a celeuma, alegou, inclusive, que apreciava muito o monumento. Tirem as suas conclusões:

Estátua de Pedro o Grande - vista da Ponte do Patriarcado - Moscou

Estátua de Pedro o Grande – vista da Ponte do Patriarcado – Moscou

 Também da ponte, tem-se uma belíssima vista para o Kremlin:

Kremlin - vista da Ponte do Patriarcado - Moscou

Kremlin – vista da Ponte do Patriarcado – Moscou

Informações práticas

Nós fomos à catedral de carro com a guia, mas ela é facilmente acessível pela estação de metrô Kropotkinskaya (Кропоткиская), na linha 1 do metrô.

Fotografias são absolutamente proibidas e não mostre jamais que você está carregando uma câmera fotográfica, do contrário, você será obrigado a deixá-la em um dos armários e, segundo a guia, não era aconselhável. Essa paranoia com fotografia adveio depois do incidente com o Pussy Riot. Por outro lado, a nossa guia não cobriu a cabeça ao entrar na igreja, não sei se eles são mais relaxados com esses protocolos do que o pessoal de São Petersburgo.

Também acredito que as imediações da Catedral possam ser um lugar bastante ok para se hospedar. Além do fácil acesso, atravessando para a outra margem do rio, você chega a um complexo de restaurantes e lojas, onde antes funcionara uma fábrica de chocolates, o que pode facilitar a vida do turista (ressalto que não conhecemos esse complexo por dentro, mas por fora pareceu ser bem bacana). Fora que você ficará perto do Parque Gorki e mais próximo da Galeria Tretyakov.

Esse post ficou gigante, mas adorei redigí-l0. Intercalar experiências diferentes valeu à pena. Possivelmente a minha próxima manifestação no blog será para escrever sobre alguma outra viagem, diferente da Rússia.

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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2 respostas para Moscou – vamos brincar de Pussy Riot?

  1. Maria Eggert disse:

    Pq Pedro, o Grande odiava Moscou??

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    • andrerj75 disse:

      Por conta de uma fronda, ou seja, uma crise sucessória. Resumidamente, a História é mais ou menos essa: com a morte do pai do Pedro, o Grande, ascenderam ao trono conjuntamente Pedro e seu irmão mais velho (fruto do primeiro casamento do pai), Ivan. Ivan morreu pouco tempo depois e sua irmã, Sofia (meia-irmã do Pedro), pretendeu ascender ao trono, gerando uma crise dinástica. Aparentemente, os boyars (a nobreza) de Moscou apoiavam a sucessão de Sofia. Esta acabou sendo derrotada e encarcerada no Convento de Novodevitchy, momento em que Pedro ascendeu ao trono e para evitar novos problemas com a fidalguia moscovita resolveu construir uma nova capital para o Império, dando origem à cidade de São Petersburgo.

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