Moscou – Galeria Tretyakov

Os posts sobre a nossa viagem à Rússia e a nossa “maratona” moscovita estão terminando, provavelmente ainda haverá mais uma ou duas postagens sobre Moscou (Kremlin e Convento Novodevichi) e, assim, finalizarei o relato sobre a jornada no maior país da Terra.

Todavia, não poderia deixar de fora talvez o principal museu de arte russa que existe no mundo, a Galeria Tretyakov (Государственная Третьяковская Галерея) – é bem verdade que este título é disputado com o Museu Russo, em São Petersburgo, cada site, guia, livro, ora “puxando a brasa para a sardinha” de um, ora para a de outro.

Galeria Tretyakov - prédio principal - Moscou - fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/museum/branch/root55716141615/

Galeria Tretyakov – prédio principal – Moscou – fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/museum/branch/root55716141615/

Tanto a mansão em que foi instalado o museu, quanto as obras que guarnecem o seu interior, foram legadas à DUMA (o órgão que corresponde ao Poder Legislativo na Rússia) moscovita pelo seu antigo proprietário, Pavel Tretyakov (Павел Третьяков), ao final do século XIX. Tratava-se de um rico industrial que consagrou sua vida a colecionar obras de arte, principalmente de artistas russos. Seu intuito consistia na aquisição de obras representativas da arte de seu país, bem como aquelas que mostrariam as novas tendências que viriam surgindo à medida que o tempo passava.

Pavel Tretyakov - por Ilya Repin - Galeria Tretyakov - Moscou. Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/3661

Pavel Tretyakov – por Ilya Repin – Galeria Tretyakov – Moscou. Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/3661

Ao contrário do que geralmente ocorre com os colecionadores de arte, que, de um modo geral investem na sua coleção para deleite próprio (além de ser uma forma interessante de se capitalizar), e depois a legam / doam por inteiro a uma instituição, de modo a impedir que seus herdeiros dilapidem o trabalho de uma vida, vendendo separadamente cada obra, em uma sanha argentária, Pavel Tretyakov sempre teve em mente tornar a sua coleção acessível do grande público. Logo, nada mais natural que a sua doação para a DUMA de Moscou.

Eu mencionei que a nossa visita a Moscou foi um tanto quanto corrida. A cidade possui dois museus tradicionais de arte, que, tenho para mim, deveriam ser de visita obrigatória para todos os passantes pela cidade. O primeiro é o Museu Estadual de Belas Artes Púchkin, que abriga arte de todas as nacionalidades, e o outro é a Galeria Tretyakov. Como a nossa visita à cidade foi realmente feita a “galope em cavalo brabo” e como queríamos tempo para efetivamente flanar por Moscou, sem nos preocuparmos com horário, tivemos que optar pela visita de somente uma dessas instituições. A escolha pela Galeria Tretyakov nos pareceu óbvia, pois a possibilidade de ver quadros das Escolas Francesa, Italiana, Holandesa, Flamenga… é possível em qualquer parte da Europa e do mundo, ao passo que apreciar as obras dos mestres russos é quase uma exclusividade de quem visita este país de dimensões continentais.

Mais uma vez aqui, nós compramos o livro do museu e não tiramos fotos de nenhuma das obras, por tal razão, selecionei as que mais me impressionaram no próprio site da Galeria Tretyakov e postarei aqui.

V. Borovikovski - "Retrato de Maria Lopukina" - Galeria Tretyakov - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/403

V. Borovikovski – “Retrato de Maria Lopukina” – Galeria Tretyakov – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/403

Esse quadro merece uma explicação um pouco mais detalhada, que põe por terra toda e qualquer alegação de antipatia e da má vontade por parte dos russos. Nós estávamos observando o quadro, em nossas mãos estava o encarte de explicação da própria sala do museu em língua francesa, quando se aproximou de nós uma senhora que fazia a fiscalização do museu. Ela perguntou de onde éramos, ao que respondemos “Brasil” e indagou: “pa-rusky?”, para sabermos se falávamos o único idioma de seu conhecimento, ao que respondemos “English and Français”, o que não serviu de muita coisa. Mesmo assim a senhora resolveu nos prestar explicações sobre a obra de arte, informando que, como o Louvre possui a “Mona Lisa”, a vedete da Galeria Tretyakov era aquele quadro. Acompanhando  e comparando as explicações da fiscal com o que estava redigido no panfleto, pudemos, mais ou menos, compreender que o belíssimo retrato era considerado o ideal de beleza feminina na época em que foi pintado, no fim do século XVIII, época do sentimentalismo, e que a rosa murcha representa a fragilidade da beleza da juventude. A senhora disse muito mais coisas, das quais não percebemos praticamente nada, mas a achei de uma simpatia e gentileza tão impactantes. Algo assim jamais aconteceria em outro grande museu do mundo.

I. Repin - "Ivan, o Terrível, e seu filho na noite do dia 16 de novembro" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/210

I. Repin – “Ivan, o Terrível, e seu filho na noite do dia 16 de novembro” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/210

Esse talvez seja o quadro mais famoso do museu e, para mim, a pintura mais impactante da escola russa em geral. Ele representa o czar Ivan IV, o Terrível, no dia em que, em um acesso de fúria, atingiu a cabeça de seu único filho com seu cetro, matando-o e deixando o Império sem herdeiros. Esse quadro foi pintado por Ilya Repin na época do atentado que culminou com a morte do czar Alexandre II (em cujo local foi construída a Catedral do São Salvador Sobre o Sangue Derramado, em São Petersburgo, que descrevi aqui), sendo que a morte do chamado “bom czar” serviu de estopim para uma fase mais sangrenta de sua pintura.

M. Shibanov - "A Celebração do Contrato de Casamento" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/437

M. Shibanov – “A Celebração do Contrato de Casamento” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/437

G. Groot - "Retrato da Imperatriz Elisabeth Petrovna com um pájem árabe" - Galeria Tratyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/408

G. Groot – “Retrato da Imperatriz Elisabeth Petrovna com um pájem árabe” – Galeria Tratyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/408

K. Bryullov - "A Amazona" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/123

K. Bryullov – “A Amazona” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/123

A. Ivanov - "A aparição do Cristo para o povo" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/144

A. Ivanov – “A aparição do Cristo para o povo” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/144

A. Ivanov - "Na Costa do Golfo de Nápoles" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/142

A. Ivanov – “Na Costa do Golfo de Nápoles” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/142

V. Perov - "Retrato de Fiódor Dostoievski" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/206

V. Perov – “Retrato de Fiódor Dostoievski” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/206

V. Pukirev - "O casamento desigual" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/157

V. Pukirev – “O casamento desigual” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/157

V. Surikov - "A Boyarina Morozova" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/218

V. Surikov – “A Boyarina Morozova” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/218

V. Kandinsky - "Moscou, a Praça Vermelha" - Galeria Tretyakov - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/374

V. Kandinsky – “Moscou, a Praça Vermelha” – Galeria Tretyakov – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/374

Y. Pimenov - "A Nova Moscou" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/355

Y. Pimenov – “A Nova Moscou” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/355

A. Deyneka - "Futuros Pilotos" - Galeria Tretyakov - Moscou - Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/335

A. Deyneka – “Futuros Pilotos” – Galeria Tretyakov – Moscou – Fonte: http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/image/_id/335

O museu é muito completo, possui ainda Malevich, Perov, Ghe, Vrubel… Eu considero realmente um must see de Moscou. Além do mais, de todos os museus típicos do país, esse é o melhor adaptado. Tem um bom restaurante, com ótimas instalações – e serviço sofrível -, onde comemos um pelmeni (uma espécie de ravióli russo), que estava muito bom; possui sofás e cadeiras em todas as salas e tem uma boa acessibilidade.

Só aconselho a irem descansados ao museu. Nós fomos após a visita do Kremlin, onde gastamos um tempo muito grande visitando o Arsenal (que eu achei uma bobagem, mas isso fica para outro post) e as incríveis catedrais construídas dentro da fortaleza (também um must see), mas chegamos na Galeria com tempo contado e exaustos (em muitos momentos, eu queria deitar num cantinho e tirar uma soneca). Eu realmente gostaria de voltar ao museu para vê-lo com o tempo que ele merece!

Outra coisa que desaconselho é o de retornar a pé da Galeria. Nós achamos que seria um passeio agradável caminhar pela cidade até a Praça Vermelha, atravessando o rio Moscou. O passeio em si pode até ser legal, mas é uma distância considerável, as pontes do rio Moscou não são de fácil acesso para pedestres, não tem muito lugar onde parar e a margem do rio é inóspita, lembra a Marginal Pinheiros ou a Tietê (por sinal, Moscou é uma das poucas capitais europeias em que o passeio pela margem do rio que a corta não é algo particularmente agradável, a única outra cidade que conheci com essas características foi Viena, o Danúbio não é azul – e eu, criança, acreditava na valsa – e a região do Donau é medonha). É mais fácil ir de metrô ou pedir um taxi.

Endereço: 10, Lavurshinsky Pereulok (Лаврушинский переулок), as estações de metrô mais próximas são: Tretyakovskaya (Третьяковская), Polianka (Полянка) ou Novokustnetskaya (Новокустнетская). O museu fica aberto todos os dias de 10:00 às 18:00, nas quintas e sextas-feiras a Galeria fecha às 22:00. Fechado às segundas-feiras.

É importante salientar que existe também a Nova Galeria Tretyakov, que fica também na margem sul do rio Moscou, e que abriga obras de artistas russos contemporâneos. Não deu para ir. Fica para a próxima!

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Sobre andrerj75

Eu me chamo André. Sou morador do Rio de Janeiro. Desde pequeno, fui acostumado a viajar com os meus pais para países diferentes e a apreciar as mais diversas expressões artísticas e culturais, o que mantive de bom grado já adulto. Também, desde pequeno, ganhei um fascínio pelo estudo de História, que se acirrou à medida que os anos foram passando. Nesse contexto, sou frequentemente abordado por amigos e por conhecidos - às vezes até por pessoas estranhas - pedindo dicas de viagens e solicitando que eu tente organizar pequenos roteiros para ajudá-los em suas férias. Resolvi unir o útil ao agradável e dei início a este blog. Escreverei sobre as minhas viagens na tentativa de passar as minhas impressões sobre os lugares que conheci. Na medida do possível, darei dicas de hotéis, de restaurantes e de lugares para passear. Não tenho qualquer compromisso com a cronologia, escreverei sobre o que der vontade. Agradeço a participação de todos!
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2 respostas para Moscou – Galeria Tretyakov

  1. Kenia disse:

    Wow fiquei morrendo de vontade de conhecer!!! Gosto justamente de, atraves dessas pinturas, tentar imaginar como era a vida naquela época… fico viajando! Eu desconheço quase que completamente a arte russa, preciso dar um jeito nisso. Adorei seu post!
    Bjs

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  2. andrerj75 disse:

    Kenia, confesso que conhecia muito pouco também. Tirando os modernos, só havia tido contato com a arte russa do século XIX, quando visitei o Palácio Dolmabahçe, em Istambul.

    Eu fiquei muito bem impressionado. O Museu Russo e a Galeria Tretyakov são pontos realmente altos de uma viagem à Rússia. O interessante é que você se depara com pouquíssimos estrangeiros e com nenhum brasileiro.

    Beijos

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