São Petersburgo – Museu Russo

Como os relatos sobre São Petersburgo estão chegando ao final, não poderia deixar de fora o Museu Russo, que, como bem sugere o seu nome, é especializado nas artes plásticas russas.

Museu Russo - Prédio Principal - Mikhailovsky Palace - São Petersburgo

Museu Russo – Prédio Principal – Mikhailovsky Palace – São Petersburgo

Trata-se de um complexo de prédios históricos que abrigam a maior coleção de artes plásticas russa no mundo inteiro, desde os primórdios até os dias atuais. Lá você encontrará desde pinturas, esculturas até artes gráficas, arte decorativa, arte sacra…

A sua “ala” principal fica no Palácio Mikhailovsky, e ele foi fundado pelo último czar, Nicolau II, no final do século XIX, para abrigar peças de origem russa que anteriormente estavam no Hermitage, nos palácios reais, que foram doadas por particulares…

O Museu se estende por outros prédios, como o Castelo Mikhailovsky, o Palácio de Mármore, o Palácio Stroganov…, mas, se você for passar pouco tempo na cidade, vá ao prédio principal no Palácio (atenção, não confundir com o castelo) Mikhailovsky.

Eu tomei conhecimento do Museu Russo por conta de uma exposição que foi apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo (acho que veio para o CCBB do Rio também), sobre o Museu Ludwig, no início de 2014. Trata-se de um museu dentro do Museu Russo. O Museu Ludwig fica no Palácio de Mármore e abriga as obras doadas pelo casal alemão Peter e Irene Ludwig para a instituição petersburguense. O Museu Ludwig possui em seu acervo obras de Andy Warhol, Basquiat e vários outros artistas do século XX… Foi uma mostra do CCBB que, na minha opinião, não foi tão bem prestigiada pelo público, nem divulgada pela imprensa. Coisas do Brasil… Mas ela acirrou a minha vontade de conhecer o museu.

Não serei pretensioso em dizer que tinha conhecimento de arte russa, pois não tinha e ainda não tenho. Já ouvira falar em Ilya Repin, em Kandinsky, em Malevich, em Chagall, já tinha visto telas do Aivazovsky no Palácio Dolmabahçe, em Istambul, na Turquia, mas o meu conhecimento de arte russa era pontual e parava realmente por aí.

Nesse ponto, a gente percebe como as políticas anticomunista ocidental e anti-ocidental dos soviéticos foi absolutamente deletéria em termos culturais. Olha que eu tive uma oportunidade diferenciada nesse sentido, por ter vivido criança na Europa ocidental e por meus pais serem pessoas até um pouco paranoicas na tentativa de incutir cultura aos filhos, mas não lembro de nenhuma exposição sobre nenhum artista plástico russo, principalmente de arte mais acadêmica, em Paris, Londres, Munique, Madrid… quando lá estivemos nos anos 80. O único artista efetivamente difundido era o Marc Chagall.

O que eu estou querendo dizer é que o Museu Russo – e também seu “par” em Moscou, a Galeria Tretyakov – por um lado, acabam sendo instituições até mais interessantes do que os famosos Hermitage e Museu Púshkin, por conta da novidade de seu acervo para nós, ditos ocidentais.

O museu cobrava um valor diferenciado para fotografar lá dentro, o que não nos interessou, como já expliquei no blog, fotos de quadros normalmente ficam muito ruins e até sem sentido, por isso, preferimos comprar os catálogos e, assim, ajudar na subsistência da instituição. De qualquer maneira, vou tentar selecionar na internet fotografias de algumas das obras de que mais gostei, ou que sejam mais representativas do museu, sem infringir nenhum direito autoral (todas as imagens foram retiradas da versão inglesa do site Wikipedia, no verbete dos respectivos artistas ou quadros):

Os últimos dias de Pompéia - Karl Bruillov - Museu Russo - São Petersburgo - fonte http://en.wikipedia.org/wiki/The_Last_Day_of_Pompeii

Os últimos dias de Pompéia – Karl Briullov – Museu Russo – São Petersburgo

Pedro, o Grande, interrogando o tsarevitch em Peterhof - Nicolai Ghe - Museu Russo - São Petersburgo

Pedro, o Grande, interrogando o tsarevitch Aliexei no Peterhof – Nicolai Ghe – Museu Russo – São Petersburgo

"Barge Haulers at the Volga" / "Içadores da Barcaça no Volga" - Ilya Repin - Museu Russo - São Petersburgo

“Barge Haulers at the Volga” / “Içadores da Barcaça no Volga” – Ilya Repin – Museu Russo – São Petersburgo

A Serpente de Bronze - Fyodor Bruni - Museu Russo - São Petersburgo

A Serpente de Bronze – Fyodor Bruni – Museu Russo – São Petersburgo

A Nona Onda - Aivazovsky - Museu Russo - São Petersburgo

A Nona Onda – Aivazovsky – Museu Russo – São Petersburgo

"The Mowers" - Grigoryi Myasoyedov - Museu Russo - São Petersburgo

“The Mowers” – Grigoryi Myasoyedov – Museu Russo – São Petersburgo

Retrato de Ida Rubinstein - Valentin Serov - Museu Russo - São Petersburgo

Retrato de Ida Rubinstein – Valentin Serov – Museu Russo – São Petersburgo

"O Banho do Cacvalo Vermelho" - Petrov Vodkin - Museu Russo - São Petersburgo

“O Banho do Cavalo Vermelho” –  Kuzma Petrov Vodkin – Museu Russo – São Petersburgo

O Círculo Preto - Kazimir Malevich - Museu Russo São Petersburgo

O Círculo Preto – Kazimir Malevich – Museu Russo São Petersburgo

Infromações práticas

O Museu Russo fica no nº 4, Inzhenernaya ulitsa (Metro – Gostiny Dvor, Nevsky Prospekt) fecha às terças-feiras, diferentemente da maioria dos museus russos que não abre às segundas-feiras. O tempo de permanência dependerá do seu interesse. Nós ficamos umas 4 horas lá dentro e não vimos tudo. Eu poderia ficar dias lá dentro.

Não vimos nenhuma cafeteria lá dentro e estávamos azuis de fome quando saimos.

Outro ponto interessante a ser enfatizado é que o Museu Russo não é quase visitado por estrangeiros, apesar de ficar lotado de russos. Por conta desta situação, NINGUÉM fala inglês, francês, português, italiano ou alemão – suponho que também não falem aramaico, latim, sânscrito… Nem nos quiosques de souvenirs se produz qualquer som fora do idioma russo. A comunicação foi feita com base na máquina calculadora: perguntávamos quanto custava e a vendedora digitava o preço na maquininha. Detalhe: os funcionários do museu também não concorrem com a Sandra Bullock para o posto de “Miss Simpatia”.

Aqui aconteceu mais uma estorinha que ilustra bem a situação. Na chapelaria, fomos obrigados a deixar nossos casacos e a mochila (bem grande) com os objetos que usamos durante o dia. Ao chegarmos ao depósito, entregamos os nossos pertences a uma senhora “fortezinha” com um cabelo bem preto adornado por um topete, em cujo interior certamente havia uma armação para dar volume. Quando ela sentiu o peso da mochila, ela disse algo que, ao nosso ouvido, soou assim: “drvjdá jvrd, cravdi parsvo…”, uma frase longa, basicamente composta por fonemas consonantais que não tínhamos a menor noção do que se tratava (ela podia estar sendo educadíssima ou nos dizendo bons palavrões). A velha fazia uma cara aborrecida e passava a mão na lombar, indicando ter problemas de coluna, determinando que um de nós fizesse o esforço de colocar a mochila no armário (trabalho que recaiu sobre a alma branca e iluminada que, para a minha sorte, me atura na vida e nas viagens). Nós caímos na gargalhada na mesma hora!

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São Petersburgo – Palácio Yussupov

Se você for passar pouco tempo em São Petersburgo e só puder visitar um único museu – eu não estou incluindo as catedrais secularizadas neste conselho, ok? – a minha melhor sugestão é que vá ao Palácio Yussupov. Obviamente, o Hermitage é imperdível, mas nem todo mundo curte “museuzão” e visitá-lo correndo, só para ticar a checklist, na minha opinião, é uma bobagem. Melhor aproveitar o seu tempo ao invés de desperdiçá-lo.

Palácio Yussupov - São Petersburgo

Palácio Yussupov – São Petersburgo

O palácio fica na fronteira entre os distritos de Sennaya e Kolomna, às margens do rio Moika, em um lugar bastante elegante da antiga capital imperial.

Rio Moika - nas proximidades do Palácio Yussupov - São Petersburgo

Rio Moika – nas proximidades do Palácio Yussupov – São Petersburgo

Margens do rio Moika - em frente ao Palácio Yussupov - São Petersburgo

Margens do rio Moika – em frente ao Palácio Yussupov – São Petersburgo

Construído no século XVIII, o palácio foi adquirido pela riquíssima família Yussupov (Юсупов) em 1830, tornando-se sua residência oficial em São Petersburgo, até a Revolução de Outubro, em 1917, quando os últimos membros da família se exilaram do país ante a ascensão ao poder do regime Comunista.

Os Yussupov eram uma família extremamente rica e influente do Império Russo e que regularmente vinham servindo aos monarcas, desde a época de Ivan IV, o Terrível. Os Yussupov inclusive prestaram auxílio aos czares da dinastia Romanov na aquisição de obras de arte para a decoração dos palácios imperiais, como os de Tsarskoye Selo, de Gatchina… Por exemplo: o Príncipe Nikolai Borissovitch Yussupov, que viveu na primeira metade do século XIX, era um homem iluminista, amigo do Voltaire e do Diderot, possuindo uma invejável cultura e era consultado pelo czar nesses assuntos. Por conta dessa influência a família adquiriu o título nobiliárquico de príncipes, desde o final do século XVII.

Uma visita ao palácio mostra com precisão a riqueza e o luxo dos nobres da Rússia do século XIX. A residência é abusivamente e suntuosamente bem decorada, não ficando a dever a nenhum dos palácios imperiais por onde passamos. Era ornada com obras de artistas importantes como Rembrandt, Hubert Robert, Greuze…, além dos mestres russos, que, após a Revolução, foram confiscados pelo Estado e incluídos na pinacoteca do Hermitage e do Museu Russo (ao passear pelo Palácio Yussupov, está assinalado onde as obras de arte originalmente estavam penduradas).

Escadaria de parada - Palácio Yussupov - São Petersburgo

Escadaria de parada – Palácio Yussupov – São Petersburgo

Escadaria de parada - Palácio Yussupov - São Petersburgo

Escadaria de parada – Palácio Yussupov – São Petersburgo

A família Yussupov era tão rica, que eles tinham um teatro – esplêndido – dentro da sua casa. Regularmente, ainda são apresentados concertos, óperas, ballets e peças de teatro. Informem-se na versão russa da página do Palácio Yussupov, ou com o concierge do hotel.

Teatro - Palácio Yussupov  - São Petersburgo - Fonte http://www.saint-petersburg.com/palaces/yusupov-palace/

Teatro – Palácio Yussupov – São Petersburgo – Fonte http://www.saint-petersburg.com/palaces/yusupov-palace/

Todavia a história do palácio – e consequentemente da família – ficou internacionalmente conhecida por conta da figura do último príncipe da dinastia a viver em solo russo, Félix Felixovitch Yussupov e por ter sido o local, em cujo porão o místico, monge louco, Grigori Rasputin fora assassinado pelas mãos do próprio Príncipe Félix, auxiliado por outros amigos aristocratas.

Rasputin foi um místico nascido nos confins da Sibéria, que caiu nas graças da família imperial por seus supostos poderes mágicos e de cura. Rasputin ganhou fama entre a nobreza e a alta burguesia da capital e de Moscou por seus já citados pretensos dotes. Esses dons raputinescos chegaram aos ouvidos dos Romanov, que lutavam para encontrar uma cura para o tsarevitch Alexei, que sofria de hemofilia, doença hereditária presente em diversos membros de sua família, inclusive na sua bisavó, a Rainha Victoria, da Inglaterra. Reza a lenda que a czarina Alexandra ficava particularmente impressionada com o “dom” do Rasputin, concedendo-lhe diversas benesses. Coincidência ou não, aparentemente quando o místico era chamado para assistir o pequeno Alexei em suas crises, o menino melhorava. Esta relação bizarra fez com que Rasputin alcançasse uma influência intocável perante o czar e, sobretudo, perante a czarina.

Rasputin não era das pessoas mais éticas que existiram no mundo – inclusive, ele chegou a fazer alusões públicas de que era amante da czarina e das princesas imperiais, o que historicamente ficou comprovado de que não foi verdade. Então, utilizou-se de sua influência para conseguir privilégios odiosos, gerando uma forte ojeriza por parte da alta sociedade imperial, inclusive dos Yussupov. No mesmo contexto, ele foi envolvido na suspeita de incentivar a czarina, que era alemã por nascimento, num suposto pacto com a Prússia durante a Primeira Guerra Mundial, que desagradaria os demais demais aliados da Rússia na Tríplice Entente (França e Inglaterra), bem como a própria elite imperial.

Por sua vez, a figura do Príncipe Félix Yussupov também era bastante controvertida. Bissexual, ele costumava circular pelos salões travestido de mulher, em plena Rússia da Belle Époque. A despeito dessa característica, casou-se com a Princesa Irina da Rússia, sobrinha única do czar Nicolau II. Sua fortuna era imensa, tanto que era considerado o homem mais rico do Império (se Nicolau II foi considerado o monarca mais rico a ter reinado na Europa, fico imaginando o que não seria a fortuna do Príncipe Félix Yussupov se ele era ainda mais rico do que o Imperador).

Príncipe Felix Felixovich Yusupov - fonte http://en.wikipedia.org/wiki/Felix_Yusupov

Príncipe Felix Felixovich Yusupov – fonte http://en.wikipedia.org/wiki/Felix_Yusupov

Pois bem, em dezembro de 1916, o Príncipe Felix convidou o Rasputin para ir ao seu palácio nas margens do rio Moika, enganando-o ao dizer que ele teria uma reunião secreta com uma dama da sociedade petersburguense. Assim, ele foi atraído para os porões do palácio, em uma sala à prova de som, onde lhe foram oferecidos biscoitos envenenados com cianeto. Só que, como Rasputin era um homem enorme e forte, o veneno não estava fazendo efeito, obrigando o Príncipe Félix e a seus comparsas a uma mudança de planos. Por conta desta circunstância, Rasputin foi baleado, mas ainda assim conseguiu fugir, sendo perseguido por Yussupov e os demais, quando foi novamente baleado nos jardins do palácio, onde veio a falecer. Seu corpo foi jogado no rio Neva e encontrado dias depois bastante mutilado, inclusive sua genitália supostamente avantajada havia sido decepada (na cidade, um museu especializado em erotismo alega possuir o “dito cujo” preservado no formol, pela internet, pode-se encontrar várias fotos do “artefato”).

Tanto o Príncipe Félix Yussupov quanto os demais partícipes do crime foram a julgamento e confessaram a prática delituosa. Mas, como sobrenome e influência eram – e ainda o são – mais importantes do que outras coisas, eles não foram condenados. O Príncipe Félix Yussupov, por exemplo, foi obrigado a se retirar da corte, uma espécie de exílio da alta sociedade.

Há uma exposição sobre a morte do Rasputin, que estava fechada quando visitamos o museu.

Informações úteis

O museu fica em uma região de São Petersburgo pouco acessível por transporte público, então, nós acabamos indo de taxi e voltando a pé, passeando, parando aqui e ali…

Se não me engano, o horário de visitação começa às 10:30 AM (acho que o museu não abre às segundas-feiras), mas é melhor confirmar com o concierge do seu hotel, pois o site  é um lixo!

A bilheteria fica num quiosque separado, fora do museu (do lado esquerdo) e, aparentemente, ninguém fala outro idioma que não seja o russo. Aqui foi um dos poucos lugares onde a fama de grosseiros e mal educados dos russos se confirmou. Os funcionários desse museu são estúpidos e antipáticos, pelo menos com estrangeiros. A única exceção foi a vendedora da lojinha de souvenirs, muito gentil!

A instituição é visitada principalmente por russos e, portanto, é mais voltada para o turismo interno. Aqui nós implicamos com um homem fedorentíssimo, que tirava foto de tudo quanto é coisa, seja bonita ou feia, desde uma bela escultura a uma xicrinha branca e quebrada sem importância. Parecia que estava preparando um catálogo do museu, só que atrapalhava os outros, inclusive os companheiros da própria excursão, ele se manifestava de forma grosseira com todo mundo. Nós o apelidamos “carinhosamente” de “Katinguelê” e, sempre que podíamos, estragávamos as fotos que ele tentava tirar.

O ingresso do museu dá direito a um famigerado audioguia.

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São Petersburgo – Fortaleza de Pedro e Paulo

Rio Nieva - Vista para a Kunstkamera (à esquerda) e para a Catedral de São Pedro e São Paulo (a torre dourada, à direita)

Rio Neva – Vista para a Kunstkamera (à esquerda), coluna Rostral (centro) e para a Fortaleza e Catedral de Pedro e Paulo (a torre dourada, à direita)

Foi nesse lugar que o projeto do czar Pedro I, o Grande, consistente na construção de uma nova capital para o Império Russo se iniciou. Além da proximidade do mar acessível durante o ano todo, a escolha do local para a construção da nova capital também teve motivos ligados à defesa.

Seguindo o curso do rio Neva, chega-se ao lago Ladoga e, consequentemente, ao interior do continente e do Império Russo. Esta posição estratégica levou a região a ser disputada por muitos povos, notadamente o sueco, que a ocupou por diversos períodos. Em um desses períodos, os invasores suecos foram expulsos pelo Alexandre Nevsky, figura canonizada pela Igreja Ortodoxa (encontra-se sepultado no Mosteiro Alexandre Nevsky, que fica no final do Nevsky Prospekt) e que veio a dar nome ao rio, à principal avenida da cidade… Com base neste histórico de lutas, o czar Pedro I, o Grande, entendeu necessária a edificação de uma fortaleza que protegesse o interior do país de ataques estrangeiros, assim, escolheu a chamada Ilha da Lebre para a construção de um posto fortificado.

Fortaleza de Pedro e Paulo - São Petersburgo

Fortaleza de Pedro e Paulo – São Petersburgo

Fortaleza de Pedro e Paulo - São Petersburgo

Fortaleza de Pedro e Paulo – São Petersburgo

Como a Lei de Murphy é universal e atemporal, obviamente, que a Fortaleza jamais foi utilizada para o seu objetivo primário de defesa, tendo servido como o local de guarnição da cidade e como prisão. Dentre seus famosos “convidados forçados” estão Dostoievski, Tolstoy, Gorki, Tito (o general sérvio que estabeleceu a Iugoslávia)…

Em relação ao Dostoievski, ele fora preso na Fortaleza e condenado à morte em razão de sua participação numa sociedade secreta de ideias liberais e que também discutia literatura. No momento em que ele iria ser morto, o czar Nicolau I comutou a pena do escritor em quatro anos de trabalho forçado na Sibéria (o período em que ele passou exilado é o tema do livro “Memória da Mansão dos Mortos”, que eu ainda não li, infelizmente). É possível visitar a sua cela na Fortaleza.

Chega-se à Fortaleza pela estação do metrô Gorkovskaya (Горьковская), que fica no Alexandrovsky Park, pertencente ao distrito de Petrogrado, situado do lado oposto do rio Neva em que fica o Nevsky Prospekt, o Palácio de Inverno… Neste parque, encontra-se erigida a única mesquita da cidade, que estava em reforma e não pudemos visitar. O estilo do templo é mais parecido com o das mesquitas encontradas na Ásia, como no Paquistão e no Uzbequistão, do que as mesquitas otomanas a que estamos mais habituados a ver devido à proximidade política da Turquia com os países ocidentais.

Parque Alexandrovsky - São Petersburgo

Parque Alexandrovsky – São Petersburgo

Mesquita de São Petersburgo - Parque Alexandrovsky - São Petersburgo

Mesquita de São Petersburgo – Parque Alexandrovsky – São Petersburgo

Do metrô, tem-se uma caminhada de mais ou menos 10 minutos até a ponte que leva à entrada da Fortaleza. Nesta ponte, do lado esquerdo de quem entra na ilha, foi colocada uma estátua de uma lebre (lembrando que a ilha se chama Ilha da Lebre), na qual os passantes tentam jogar moedas. Reza a lenda, que se a moeda atingir um dos plateaus é sinal de boa sorte, nós não atingimos esse objetivo, e desistimos depois da terceira tentativa.

Estátua de lebre - ponte - Fortaleza de Pedro e Paulo

Estátua de lebre – ponte – Fortaleza de Pedro e Paulo – São Petersburgo

A vedete da Fortaleza certamente é a Catedral de Pedro e Paulo, a mais alta igreja ortodoxa do mundo e um dos cartões postais mais significativos de São Petersburgo.

Catedral de Pedro e Paulo - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo - nave - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – nave – São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo - nave - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – nave – São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo - altar principal - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – altar principal – São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo - cúpula do altar principal - São Petersburgo

Catedral de Pedro e Paulo – cúpula do altar principal – São Petersburgo

A construção do templo também foi encomendada pelo czar Pedro I, o Grande. O edifício que vemos hoje é mais recente do que a primeira igreja e serve, principalmente, como necrópole real. Praticamente todos os membros da família imperial Romanov estão enterrados ali, inclusive os restos mortais do último czar, Nicolau II, e de sua família, que foram transportados para a necrópole do local de sua morte (a cidade de Ekaterimburgo) após a queda do regime comunista.

Túmulo de Nicolau II e de sua família - Capela de Santa Catarina - Catedral de Pedro e Paulo - São Petersburgo

Túmulo de Nicolau II e de sua família – Capela de Santa Catarina – Catedral de Pedro e Paulo – São Petersburgo

Os últimos Romanov foram assassinados pelos Bolcheviques em 1918. A justificativa que se deu para a eliminação do czar e de sua família é que eles representariam perigo para a Revolução de Outubro, eis que símbolos da monarquia. Os comunistas também justificaram a barbárie do seu ato no fato de que o chamado Exército Branco, liderado por russos monarquistas apoiados pelas potências ocidentais que temiam a ascensão do regime marxista, e pretendiam a restauração do monarca ao trono do país, estavam muito próximas à cidade de Ekaterimburgo, onde os Romanov permaneciam aprisionados na Casa Ypatiev.

Segundo relatam os historiadores, quando foi decidido o triste destino do czar e de seus familiares (que incluiu também o médico da família e um dos criados mais próximos), foram todos levados para o porão da Casa Ypatiev. Lá, os carrascos os executaram a tiros. Os homens morreram antes das mulheres, pois elas haviam costurado jóias nas suas roupas e os tiros ricochetearam ao alvejá-las. Aparentemente o tsarievitch Alexei estava no colo do pai e foi atingido depois dele, tendo o visto morrer. Segundo o que relatam, a execução durou um tempo razoável. Fico imaginando o horror!

Durante o período em que o Boris Yeltsin foi governador do Sverdlosk oblast, cuja principal cidade (acho que capital também) é Ekaterimburgo, a Casa Ypatiev foi demolida, pois a população, na surdina, começou a depositar flores em memória da família imperial, o que era coibido pelos soviéticos sem grandes sucessos. Reza a lenda que o Yeltsin afirmou que a demolição da casa era um grande erro histórico. Atualmente, no local, foi construída a Igreja de Todos os Santos e a família do Nicolau II foi canonizada pela igreja ortodoxa. Compensou-se um excesso com outro excesso, comme toujours!

Os pontos interessantes da Fortaleza são, sem dúvida a catedral (vale à pena pagar o ingresso para conhecê-la) e a linda vista da outra margem do rio Neva. A entrada na Fortaleza, em si, é grátis e é um passeio bem agradável.

Convém ressaltar que a praia ao redor da Fortaleza é utilizada pela população local nos dias de calor. Há quem se aventure num mergulho na águas sujas do rio. Eca! Próximo ao local, fica o ancoradouro do cruzador Aurora, o navio que, com um tiro atingiu o Palácio de Inverno, dando início à sua invasão e à Revolução de Outubro de 1917 (nós não visitamos).

Vista da Fortaleza de Pedro e Paulo para o Almirantado, a cúpula de Santo Isaac, a Coluna Rostral e a antiga Bolsa de Valores

Vista da Fortaleza de Pedro e Paulo para o Almirantado, a cúpula de Santo Isaac, a Coluna Rostral e a antiga Bolsa de Valores

Vista da Fortaleza de Pedro e Paulo para a antiga Bolsa de Valores, Coluna Rostral.

Vista da Fortaleza de Pedro e Paulo para a antiga Bolsa de Valores, Coluna Rostral

Saída da Fortaleza de Pedro e Paulo - o navia é um restaurante - São Petersburgo

Saída da Fortaleza de Pedro e Paulo – o navio é um restaurante – São Petersburgo

O distrito de Petrogrado e o distrito da Ilha de Vasilievsky (onde fica a antiga bolsa de Valores) são lindos. Nesta ilha, existe uma enorme concentração de prédios em estilo art nouveau. Teria sido o nosso passeio do último dia, se o tempo não tivesse nos pregado uma peça…

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São Petersburgo – Museu Hermitage

Confesso que estava com uma certa preguiça em redigir este post, mas não dá para deixar fora de qualquer narrativa de viagem sobre São Petersburgo a sua principal atração.

No entanto, fazer um relato sobre “museuzões”, ou seja, aqueles cujo principal objetivo da instituição é o de expor obras de arte, em contraposição àqueles museus em que o visitante estará mais exposto à História, como ocorre, por exemplo, nos castelos que foram antigas habitações da nobreza, pode ser difícil e, principalmente, muito superficial.

É bem verdade que o Hermitage mescla um pouco das duas concepções acima, o que, por um lado pode ser ótimo, por outro, pode ser uma característica que de certa forma atrapalha. Esclarecendo: a estrutura interna, a ornamentação das salas do Hermitage, sobretudo da parte que funciona na antiga residência imperial do Palácio de Inverno, é tão suntuosa e magnífica, que acaba de certa forma eclipsando o impacto que as obras de arte expostas causam nos visitantes. Você fica em dúvida se olha para o teto, para as paredes, para o chão… ou para os quadros, esculturas e objetos expostos: uma briga que dispersa os seus olhos. Para estabelecer uma comparação fiel seria o mesmo que transportar as obras de arte do Louvre para expô-las no Palácio de Versailles. É, sem sombra de dúvida, o mais deslumbrante museu de sua categoria que eu conheci, em termos de estrutura física do prédio que o abriga. Sério!

Como a maioria dos grandes museus, sua criação se deu pela ideia de expor as obras de arte adquiridas pela família real ao longo do tempo. A história do Hermitage remonta ao período do reinado de Catarina II, a Grande, que, ao comprar uma grande quantidade de telas de pintores ocidentais, para abrigá-las, comissionou a reforma do Palácio de Inverno com a construção do espaço necessário para expor as obras. Eu já mencionei em posts anteriores que a família real russa era sensivelmente mais culta do que a maioria dos reis e rainhas dos outros Estados europeus. No caso, Catarina II era amiga e correspondente de Voltaire e de outros filósofos iluministas, se aconselhando com eles na aquisição de obras de arte. E essa prática continuou com os demais czares. A vasta coleção de impressionistas do museu foi comprada pelos imperadores diretamente com os pintores – a preço de banana, na época – escutando conselhos de profissionais entendidos em arte. E assim foi formado o acervo que, futuramente, se tornaria um dos maiores museus do mundo (alguns sites alegam que ele é o maior, outros dizem que o Louvre ocupa a posição).

Palácio de Inverno, São Petersburgo

Palácio de Inverno, São Petersburgo

Palácio de Inverno, São Petersburgo

Palácio de Inverno, São Petersburgo

Vista do Palácio de Inverno para a Coluna de Alexandre e para o Edifício do Estado Maior - São Petersburgo

Vista do Palácio de Inverno para a Coluna de Alexandre e para o Edifício do Estado Maior – São Petersburgo

Reza a lenda que, após a construção dessa nova ala do Palácio de Inverno, a Imperatriz Catarina II, gostava de se trancar sozinha pelo espaço de forma a admirar as obras sem que ninguém a perturbasse, permanecendo isolada por várias horas, como uma eremita, uma ermitã… Daí o nome Hermitage.

Em 1852, o czar Nicolau I abriu o museu ao público, após a construção de um novo prédio chamado de o Novo Hermitage, que fica ao lado do Palácio de Inverno (há uma passarela ligando os dois prédios), cuja entrada era pela Millionnaya ulitsa.

Millionnaya ulitsa - vista do Palácio de Inverno - São Petersburgo

Millionnaya ulitsa – vista do Palácio de Inverno – São Petersburgo

Antiga entrada do Novo Hermitage - Millionnaya Ulitsa - São Petersburgo

Antiga entrada do Novo Hermitage – Millionnaya Ulitsa – São Petersburgo

Novo Hermitage - Antiga escadaria de entrada - São Petersburgo

Novo Hermitage – Antiga escadaria de entrada – São Petersburgo

Tendo em vista o vasto acervo do museu, que faz com que a sua visita integral dure várias horas de vários dias, a sugestão que eu dou é a de selecionar de antemão aquilo que é mais importante para vocês visitarem. Nós escolhemos os aposentos em que os czares habitavam, com o mobiliário da época (em francês, são chamados de chambres d’apparat, eu desconheço uma tradução da expressão para o português ou para o inglês), a extensa coleção de Rembrandts (a maior do mundo depois da exposta no Rijkmuseum de Amsterdam), os dois quadros do Da Vinci, o enorme acervo de Rubens (por sinal, o Hermitage bate um bolão em arte flamenca), a pintura italiana (Raphaël, Caravaggio…), fora os impressionistas e modernos. De qualquer maneira, não dava para fazer o que eu gosto, que é parar em cada quadro e ficar um tempo observando detalhes… Ficamos umas 5 horas lá dentro e, mesmo assim, vimos os impressionistas e modernos tão rápido, pois estávamos exauridos, que voltamos no dia seguinte para ver com mais calma. Deixamos de lado a arte egípcia, grega, romana, além da pintura alemã e boa parte da pintura holandesa e várias outras obras de arte de diferentes escolas e épocas.

E isso tudo porque nós otimizamos o tempo, já que a visita foi feita na companhia da Anna Rudaya, o que evitou de nos perdermos dentro da infinidade de salas do museu, além de ter nos transmitido informações históricas interessantes.

As fotografias que nós tiramos são basicamente das chambres d’apparat. Para as obras de arte expostas, nós compramos um catálogo do museu.

Escadaria de Jordão - Museu Hermitage - São Petersburgo

Escadaria de Jordão – Museu Hermitage – São Petersburgo

Escadaria de Jordão - Museu Hermitage - São Petersburgo

Escadaria de Jordão – Museu Hermitage – São Petersburgo

Vaso em malaquita - Museu Hermitage - São Petersburgo

Vaso em malaquita – Museu Hermitage – São Petersburgo

Pela Escadaria de Jordão, todo Dia de Reis, que é a data em que os cristãos ortodoxos russos trocam os presentes de Natal (como ocorre na Espanha), o czar descia por essa escada, acompanhado por um séquito, dirigindo-se até o leito do rio Neva, congelado. Lá chegando, abriam um furo no gelo e coletavam um pouco de água, que o czar bebia para ter boa sorte, tanto para ele, quanto para o Império. Os russos são extremamente supersticiosos.

Sala do Trono - Museu Hermitage - São Petersburgo

Sala do Trono – Museu Hermitage – São Petersburgo

Sala do Trono - Museu Hermitage - São Petersburgo

Sala do Trono – Museu Hermitage – São Petersburgo

Sala do Trono - Museu Hermitage - São Petersburgo

Sala do Trono – Museu Hermitage – São Petersburgo

Lustre - Sala do Trono - Museu Hermitage - São Petersburgo

Lustre – Sala do Trono – Museu Hermitage – São Petersburgo

Ainda no Palácio de Inverno, com janela com vista para o rio Neva, fica, na minha opinião, a sala mais bonita do museu, o chamado Pavillion Hall, datado do século XIX. Nesta sala fica o interessante Relógio Pavão, em formato da ave, e que funciona até hoje. Segundo o que a guia nos contou, uma vez por semana (vale à pena conferir o dia – eu queria ter assistido, mas não deu) ele é posto para funcionar e a ave, que é um autômato, se mexe, estica as penas, abre a cauda… O objeto foi um presente da Inglaterra para a Imperatriz Catarina II, a Grande. Além do relógio, a sala é guarnecida com mosaicos, isso sem mencionar que a decoração foi feita com dourarias no gesso e mármore abundante. É de uma delicadeza…

Pavillion Hall - Museu Hermitage - São Petersburgo

Pavillion Hall – Museu Hermitage – São Petersburgo

Pavillion Hall - Museu Hermitage - São Petersburgo

Pavillion Hall – Museu Hermitage – São Petersburgo

Detalhe dos ornamentos das colunas - Pavillion Hall - Museu Hermitage - São Petersburgo

Detalhe dos ornamentos das colunas – Pavillion Hall – Museu Hermitage – São Petersburgo

Relógio "Pavão" - Pavillion Hall - Museu Hermitage - São Petersburgo

Relógio “Pavão” – Pavillion Hall – Museu Hermitage – São Petersburgo

E é uma sucessão de salas magníficas…

Salão de Ouro - Museu Hermitage - São Petersburgo

Salão de Ouro – Museu Hermitage – São Petersburgo

Museu Hermitage - São Petersburgo

Museu Hermitage – São Petersburgo

Na foto acima, as pinturas da parede foram feitas diretamente no mármore, nunca tinha visto algo do gênero. É bonito, mas ficou parecendo decalque.

Museu Hermitage - São Petersburgo

Museu Hermitage – São Petersburgo

Museu Hermitage - São Petersburgo

Museu Hermitage – São Petersburgo

Foyer do teatro - Museu Hermitage - São Petersburgo

Foyer do teatro – Museu Hermitage – São Petersburgo

Biblioteca do czar Nicolau II - Museu Hermitage - São Petersburgo

Biblioteca do czar Nicolau II – Museu Hermitage – São Petersburgo

 

Informações Práticas

O Museu é bastante cheio, nível Musée d’Orsay, ligeiramente menos lotado do que um Louvre ou do que um British Museum, isso porque não fomos em alta temporada. foyer de entrada é uma confusão sem fim, principalmente se você for tentar comprar as entradas diretamente na bilheteria. Para sair desse problema, eu sugiro três soluções: 1) comprar pela internet (pelo que verifiquei o bilhete comprado online vale para qualquer dia, mas convém se informar); 2) adquirir as entradas nas máquinas automáticas que ficam de ambos os lados da entrada do museu que fica na Praça do Palácio de Inverno. Essas máquinas se encontram no pátio interno, no fundo, e ninguém as nota (nós as utilizamos em nossa segunda visita ao museu); 3) contratar um guia (é a opção mais cara, mas a melhor para quem quer aproveitar mais a visita e evitar de se perder na imensidão do lugar).

Apesar de não ser como o Louvre ou como o British Museum (utilizo os dois como exemplo, porque ficam também em prédios muito antigos que foram adaptados), o Hermitage é acessível para quem tem mobilidade reduzida (meu caso), mas os elevadores não são tão bem sinalizados assim. Você pode perguntar as indicações para os fiscais do museu (muitos falam inglês, principalmente aqueles que ficam sentados nas mesas na sala imediatamente anterior à sala do trono).

Dica: na loja do museu, se você quiser comprar livros, eles enviam diretamente para o Brasil. Demorou, mas chegou tudo direitinho.

Os pontos ruins:

1) banheiros pessimamente localizados. Muitas vezes, você tem que dar voltas, descer escadas…, o que pode ser um problemão, dependendo da situação;

2) o café do museu é uma droga! Não tem lugar para sentar direito, é self service, é caro… Aqui foi onde eu armei um barraco com uma brasileira. Estava guardando lugar para duas pessoas num dos bancos laterais da galeria, em que está precariamente instalado o café. A mulherzinha veio e mandou todo mundo do grupo dela sentar, ao que eu avisei: “estou guardando lugar para duas pessoas”, ao que ela rebateu “só podia ser brasileiro para ser mal educado”. Prontamente respondi: “só podia ser brasileira para ser abusada! Se você estivesse sentada numa mesa e eu chegasse e tentasse me sentar no lugar vazio e você dissesse que estava ocupado, eu sairia numa boa. Como existem poucas mesas no café, o mesmo raciocínio tem que ser feito para os bancos laterais”. Ela tentou argumentar, mas viu que uma mesa ficou vaga e saiu.

Eu reservaria pelo menos umas 5 horas para o museu, selecionando o que você quer ver. Levaria também um lanchinho (barrinhas de cereal ou chocolates… não acredito que eles deixem entrar com sanduíches) em uma bolsa bem pequena (casacos e bolsas grandes têm que ser obrigatoriamente deixados na chapelaria) e me informaria também sobre a localização dos toilettes para evitar qualquer perrengue.

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Pushkin (Tsarskoye Selo) – Palácio da Catarina

Após um “inverno” de 12 dias fora do blog, retorno ao meu atual passatempo predileto.

Além do Peterhof, nos arredores de São Petersburgo, se encontram uma série de residências palacianas que foram utilizadas pela nobreza czarista durante o período do Império Russo em que São Petersburgo foi sua capital. Dentre eles, destaca-se o chamado Palácio da Catarina (Екатериский Диорец – “Yekaterinsky dvorets”), situado na cidade de Pushkin (Пушкин), ao Sul de São Petersburgo.

Aquela cidade foi conhecida durante a maior parte do período imperial, pós transferência da capital de Moscou para Piter, pelo nome de Tsarskoye Selo (Царское Село), que significa “aldeia dos czares” em russo. Não é para menos, em seu território, além do Palácio da Catarina, encontra-se, dentre outras “taperas” da nobreza russa, o Palácio do Alexandre (Александровский Дворец – “Alexandrovsky dvorets”), que foi a residência favorita do Nicolau II, o último czar. Infelizmente, não deu para visitá-lo.

Assim como o Peterhof, conhecer o Palácio da Catarina (nos guias, está sinalizado como Palácio de Catarina, mas como eu não nasci em Niterói, prefiro usar a contração da preposição “de” com o artigo definido feminino “a”, peço desculpas aos amigos e leitores que moram “do outro lado da poça” – rsrsrsrsrs) era um dos meus principais objetivos quando viajei para a Rússia. Por isso, estava totalmente fora de cogitação  não visitá-lo. Como havia lido nos guias que o palácio ficava sempre muito cheio e o mesmo blá-blá-blá de sempre de que há um número limitado de ingressos por dia, fora que é quase unânime a impressão dos turistas de que o seu acesso é complicado para quem não fala russo, complicando sua visita “independente”. Com base nesta realidade funesta, e para evitar qualquer tipo de contratempo, nós reservamos o passeio direto pela agência brasileira e fomos acompanhados pela excelente guia francófila Marie Krasnitskaya, indicada pela agência Tchayka.

Abordando um pouco a história do lugar – e como instrumento para apagar qualquer espécie de influência que a época do Império ainda pudesse exercer sobre a população -, durante o período soviético, a cidade de Tsarskoye Selo teve seu nome alterado para Pushkin. Para quem não conhece, Alexandre Pushkin é considerado o principal poeta russo e, junto com Lemonosov, é reputado com um dos pais da língua russa moderna. Apesar de ser moscovita, Pushkin passou grande parte de sua vida na cidade de São Petersburgo, onde faleceu, vítima do duelo com o o nobre francês Georges d’Anthès, que havia cortejado a sua esposa. No mais, a antiga capital imperial foi ambiente de várias de suas obras. Como o escritor estudou durante muito tempo no Liceu Imperial de Tsarskoye Selo, os soviéticos entenderam por bem rebatizar a cidade em sua homenagem.

Estátua de Alexandre Pushkin - Pushkin, Federação Russa

Estátua de Alexandre Pushkin – Pushkin, Federação Russa

Contrariamente ao que se pode acreditar, o nome Palácio de Catarina não está, em princípio, ligado à figura da Imperatriz Catarina II, a Grande. Na verdade, a construção do castelo está relacionada com a czarina Catarina I, mulher de Pedro I, o Grande. Foi esta rainha que determinou a construção de uma residência nos arredores da capital, no início do século XVII. Entretanto, a história do palácio está mais ligada à vida de sua filha, a Imperatriz Elizabeth Petrovna, que contratou o famoso arquiteto Francesco Bartolomeo Rastrelli, para embelezar e aumentar as proporções de sua residência de verão.

Palácio da Catarina - Puskin - Rússia

Palácio da Catarina – Puskin – Rússia

Palácio da Catarina - Pushkin - Rússia

Palácio da Catarina – Pushkin – Rússia

Palácio da Catarina - Pushkin - Rússia

Palácio da Catarina – Pushkin – Rússia

Catarina II, a Grande, não se interessava muito pelo palácio, porque ela considerava o estilo barroco rococó démodé. Ela está mais ligada à cidade por ter mandado construir o Palácio de Alexandre, que ela presenteou ao seu primeiro e favorito neto, o tsarevitch Alexandre, futuro czar Alexandre I.

Outro fato interessante de ser comentado é que existe uma predileção das pessoas na figura de Catarina II, a Grande (na verdade, ela media cerca de 1,65m, e era considerada alta para a época). Nada contra ela, em princípio, mas eu tenho a impressão de que foi uma mulher bastante nefasta. Ela era alemã, casou-se com o czar Pedro III, a quem ela odiava, tramou o seu assassinato para chegar ao trono, detestava o filho (o futuro czar Paulo I, o que tem cara de ET)… Mulheroca da braba! Muito mais interessante, no meu ponto de vista, era a Imperatriz Elizabeth Petrovna, uma mecenas, déspota esclarecida, aboliu a pena de morte no Império Russo (que depois foi reinstaurada, salvo engano por Catarina II, a Mulheroca)…

O museu estava muito cheio! Hordas de turistas chatos em grupos enoooooormes de chineses, que abarrotavam todas as salas num empurra-empurra de deixar Versailles parecendo uma cidade fantasma de tão calma. Para vocês terem uma ideia da quantidade de gente no lugar, as babushkas (vovós, bem chatas e ranzinzas que fazem o controle dos visitantes) só deixam um determinado número de pessoas entrar em cada sala e ficam regulando o tempo que cada um fica lá dentro. Várias vezes, nesse passeio, a nossa guia teve que se impor com as velhotas que queriam nos expulsar das salas, foi engraçado!

Contrariamente ao que acontece em Peterhof, o principal atrativo do Palácio da Catarina são seus interiores ricamente decorados. Por este motivo, e aliado ao dia, que estava chuvoso (o que em São Petersburgo não significa muita coisa, pois o clima é temperamental e pode mudar a qualquer momento), dava a impressão de superpopulação no museu, uma verdadeira Índia. A “vantagem” é que se pode tirar fotografias em seu interior. Ei-las!

Escada Rastrelli - Palácio da Catarina - Rússia

Escada Rastrelli – Palácio da Catarina – Rússia

Escada Rastrelli - Palácio da Catarina - Pushkin

Escada Rastrelli – Palácio da Catarina – Pushkin

Nas fotos abaixo, dá para se notar a “assinatura” do Rastrelli no projeto da Grande Sala. Sua característica principal é o uso de uma fileira de janelas acima das portas (próxima ao teto) e o uso abundante de dourarias.

Grande Sala - Palácio da Catarina - Pushkin

Grande Sala – Palácio da Catarina – Pushkin

Grande Sala (detalhe) - Palácio da Catarina - Pushkin

Grande Sala (detalhe) – Palácio da Catarina – Pushkin

A grande estrela do Palácio é a sala decorada inteiramente com placas de âmbar, na cor caramelo – fotografias terminantemente proibidas no recinto. O âmbar é encontrado em profusão na costa do Mar Báltico e serviu de elemento para a composição interna da sala. É impressionante! Aparentemente os nazistas, antes de destruírem o palácio, tal qual fizeram com o Peterhof, desmontaram as placas de âmbar que ornavam o ambiente e levaram para a Alemanha. Elas nunca foram reencontradas e a Alemanha nega que elas estejam em seu território. Então, quando da reconstrução do palácio, logo após o final da II Guerra, esta sala demorou a ser reaberta ao público, devido as disputas com a Alemanha para reaver as placas de âmbar em, quando os russos desistiram daquela empreitada, ante a complexidade dos trabalhos. Mais uma vez, tiro o meu chapéu para os restauradores russos! Trabalho primoroso! A minha admiração pelo país e pelo povo só aumenta!

Sala Âmbar - Palácio da Catarina - foto extraída do site http://en.m.wikipedia.org/wiki/Amber_Room

Sala Âmbar – Palácio da Catarina – foto extraída do site http://en.m.wikipedia.org/wiki/Amber_Room

As cozinhas nos palácios russos ficavam fora do edifício principal de modo a evitar que o cheiro ruim se propagasse pelas áreas mais nobres da residência. Nesse diapasão, a comida era toda servida em pratos equipados com poderosos réchauds individuais, hábeis a permitir o não resfriamento da comida, principalmente durante o tenebroso inverno russo.

Sala de Jantar dos Cavaleiros - Palácio da Catarina - Pushkin

Sala de Jantar dos Cavaleiros – Palácio da Catarina – Pushkin

Reparem, também, no chauffage ao fundo, feito no estilo holandês, em clara homenagem ao gosto do czar Pedro I, o Grande. Na verdade, praticamente todos os aquecedores do palácio foram decorados desta forma:

Sala Verde - Palácio da Catarina - Pushkin

Sala Verde – Palácio da Catarina – Pushkin

Palácio de Catarina - Pushkin

Palácio de Catarina – Pushkin

Objeto decorativo confeccionado na técnica de "bola de neve" - Palácio da Catarina - Pushkin

Objeto decorativo confeccionado na técnica de “bola de neve” – Palácio da Catarina – Pushkin

Detalhe da decoração do teto - Palácio da Catarina - Pushkin

Detalhe da decoração do teto – Palácio da Catarina – Pushkin

Peço desculpas porque as fotos não estão lá grandes coisas e nem fazem jus à beleza do lugar. Como já expliquei, eu tenho por hábito comprar guias de museus, então, realmente as fotografias nesses locais acabam tendo um papel secundário.

Peterhof possui jardins à la française (geometricamente desenhados, ornados de fontes e canteiros de flores milimetricamente projetados…), no meu ponto de vista, os jardins do Palácio da Catarina apesar de seguirem mais ou menos o mesmo estilo, têm uma influência dos chamados jardins à l’anglaise, que são bosques onde se pode passear, sem uma preocupação estética tão arraigada, os canteiros são menos projetados, é um modelo um pouco mais livre.

Galeria de Cameron - Palácio da Catarina - Pushkin

Galeria de Cameron – Palácio da Catarina – Pushkin

Galeria de Cameron vista do Pavilhão da Gruta - Palácio da Catarina - Pushkin

Galeria de Cameron vista do Pavilhão da Gruta – Palácio da Catarina – Pushkin

Pavilhão da Gruta - Palácio de Catarina - Pushkin

Pavilhão da Gruta – Palácio de Catarina – Pushkin

Banhos Turcos - Palácio da Catarina - Pushkin

Banhos Turcos – Palácio da Catarina – Pushkin

De um modo geral, nós tendemos a imputar à opulência das cortes absolutistas como a principal causa para a ocorrência das revoluções. Quem nunca ouviu dizer que a vida frívola, fútil e opulenta da Maria Antonieta foi a causa da Revolução Francesa? O mesmo se diz em relação à Revolução Bolchevique, por conta da vida abastada dos czares em contraposição à pobreza da população. Pois é, essa afirmativa tem que ser relativizada.

Se por um lado, é óbvio que os gastos das famílias reais eram absurdos, eles por si sós não levaram à eclosão de nenhuma revolução. Fora a evidente má gestão pública, toda revolução geralmente está diretamente vinculada a um período de fome, resultante de safras insuficientes em virtude de problemas climáticos, além de períodos de guerra. Ouso dizer, e peço que me corrijam se eu estiver equivocado, que o fator preponderante para a Revolução Francesa foi o auxílio prestado pela França na Guerra de Independência Americana. Muito dinheiro foi direcionado para equipar o exército francês que lutou na região, situação agravada por um rigoroso inverno que assolou a Europa na Ocasião. Os gastos da Maria Antonieta eram ínfimos em relação às despesas estatatais…

O mesmo ocorreu na Rússia pré-Revolução. Ainda que o czar Nicolau II seja considerado como o monarca mais rico que já governou na Europa, as despesas dos Romanov não eram o real problema. Havia efetivamente uma incompetência do czar como Chefe de Governo, mas também as finanças imperiais degringolaram por conta da Guerra do Japão, declarada pela Rússia e que tinha por objetivo a expansão territorial do Império Russo (megalomania) e afirmar sua influência na região da Manchúria, na China. Práticas agrícolas antiquadas, sistema de servidão e necessidade de alimentar as tropas acabaram gerando fome e um caos na economia, ambiente perfeito para a revolução.

Então, não adianta culpar os Palácios de Versailles, de Fontainebleau, de Peterhof ou da Catarina pelos levantes do povo.

  Palácio da Catarina – Informações Práticas

O link acima dá acesso ao site do museu. Como já esclarecido no post sobre Peterhof, sugiro que acessem a versão russa da página e façam a tradução automática pelo Google Chrome. As informações em russo costumam ser melhores.

Para quem quer fazer o passeio de forma independente, segundo o Lonely Planet, basta dirigir-se à saída da estação de metrô Moskovskaya indicando “buses to the airport” (aproveitem para ver o monumento construtivista soviético em homenagem aos Heroicos Defensores da Cidade de Leningrado e o Palácio dos Sovietes, que ficam nas imediações) e pegar as mashrutkas (uma espécie de micro-ônibus) nº 286, 299, 342 ou K545 – eu aconselharia a se informarem melhor no hotel – e pedir para saltar na estação R30 (Pushkin).

Também é possível ir de trem, pela estação Vitebsky, descendo na estação Detskoe Selo (Детское Село), mas aparentemente estes trens não são regulares, exceto nos fins de semana. Eu não arriscaria.

Não me arrependo mesmo de ter feito esse passeio já programado com a agência. Vocês podem tentar com uma agência local. A Anna Rudaya pode organizar esse programa para vocês.

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São Petersburgo – Flanando pelos canais e ruas da cidade

Espero não me alongar nesse post, até porque não tenho tanta informação armazenada sobre o planejamento da cidade. Para postar o que eu encontrar na Wikipedia ou na Wikitravel, acho melhor deixar por conta de vocês…

Antes de mais nada, acho interessante compartilhar esse vídeo que encontrei no You Tube, que mostra as cidades de Leningrado e de Moscou, em 1967, no auge da Guerra Fria. Os primeiros 5 minutos retratam Leningrado, dá para ver que alguns monumentos, cujas fotos eu postei aqui, estavam em reforma, como a Catedral Nossa Senhora de Kazan e o Palácio de Inverno. O vídeo também mostra a Catedral de Smolny, seguida pelo prédio onde funcionou a DUMA e posteriormente o Conselho dos Sovietes, além do Nevsky Prospekt.  Em Moscou, o filme se concentra no início nos arranha-céus do Stalin (Hotel Ucrânia e Universidade de Lomonosov), mas também mostra a Praça Vermelha, o Kremlin e termina com o Mausoléu do Lênin. Tudo isso embalado por uma trilha sonora especial, com trechos de músicas de Leonard Bernstein, Chopin, Corelli, Mendelssohn… Queria muito ter conhecido o país antes da queda da URSS!

Eu comentei no post anterior do fascínio que o mar e a Marinha exerciam sobre Pedro I, o Grande. Este interesse era tanto que um dos primeiros prédios a serem construídos na nova capital imperial foi o edifício do Almirantado.

Almirantado, São Petersburgo

Almirantado, São Petersburgo

Almirantado, São Petersburgo

Almirantado, São Petersburgo

Esse fato também levou o poderoso czar a estabelecer uma rede aquaviária dentro da cidade.  Acredito que o seu intuito era o de permitir a locomoção por barco dentro da cidade, tornando o uso de cavalos e de carruagens suplementar. Não sei se este projeto chegou a realmente funcionar no século XVIII. No século XXI, certamente não.

Por conta desta característica, foram aproveitados (acredito que em parte alterados também) os cursos dos rios Neva, Fontanka e Moika, além de ter sido criado um sem número de canais que atravessam o Centro Histórico da cidade, sendo que o mais famoso é o Gribodoyeva. Assim a cidade acabou sendo composta por um enorme número de ilhas, interligadas por pontes.

Nesse ponto, é importante esclarecer que, de noite, as pontes do Neva ficam todas levantadas, permitindo a passagem de embarcações maiores. Isto significa que, se você estiver do outro lado do rio, vai ter que aguardar o amanhecer para retornar ao seu hotel, ou pagar uma cara corrida de taxi para a única ponte que não é levadiça. O site da Wikitravel tem um cronograma do funcionamento das pontes, mas convém checar eventuais alterações.

Bank Most (Ponte dos bancos) - Canal Gribodoyeva

Bank Most (Ponte dos bancos) – Canal Gribodoyeva

Bank Most (Ponte dos bancos) - detalhe - Canal Gribodoyeva

Bank Most (Ponte dos bancos) – detalhe – Canal Gribodoyeva

Bank Most (Ponte dos bancos) - Canal Gribodoyeva

Bank Most (Ponte dos bancos) – Canal Gribodoyeva

A Bank Most está localizada próxima à Catedral de Nossa Senhora de Kazan. Era um dos pontos que eu precisava ver em São Petersburgo, só que, apesar de bonita, ela não correspondeu às minhas expectativas. Precisa de restauração urgente. Está situada em uma região em que todos os prédios necessitam de pintura, fora que ela, em si, está mal conservada. Uma das luminárias dos leões alados foi quebrada e ainda não reposta… sei lá, não curti muito, não.

Rio Moika - Esquina com Nevsky Prospekt - Preparação para o desfile em homenagem ao fim da II Guerra Mundial (9 de maio)

Rio Moika – Esquina com Nevsky Prospekt – Preparação para o desfile em homenagem ao fim da II Guerra Mundial (9 de maio)

Rio Moika - Esquina com Nevsky Prospekt - Preparação para o desfile em homenagem ao fim da II Guerra Mundial (9 de maio) - detalhe

Rio Moika – Esquina com Nevsky Prospekt – Preparação para o desfile em homenagem ao fim da II Guerra Mundial (9 de maio) – detalhe

Rio Moika com ulitsa Gorokhovaya - Magasin "Au Pont Rouge" (fechado)

Rio Moika com ulitsa Gorokhovaya – Magasin “Au Pont Rouge” (fechado)

Ponte Vermelha - rio Moika - São Petersburgo

Ponte Vermelha – rio Moika – São Petersburgo

Todos esses locais ficam nas proximidades do Nevsky Prospekt, a principal rua de São Petersburgo.

As pessoas que me conhecem, sabem do meu total desapontamento a respeito desses famosos e grandes boulevards, que cruzam as cidades do mundo. Explico: quando era criança, eu tinha verdadeiro fascínio pela Avenue des Champs Elysées, em Paris. Eu a achava linda, sofisticada, tinha ótimos cinemas. Passei mil anos (os que me conhecem sabem que eu tenho mais de mil anos) sem retornar a Paris e, quando fui, em 2009, achei o lugar totalmente mudado, uma bagunça visual, cheio de imigrantes tentando dar golpes em turistas, principalmente nas proximidades da Place de l’Étoile. Continuava bonita, mas os efeitos da globalização realmente tinham marcado para pior o famoso boulevard; é um pouco triste você ver a centenária loja da Guerlain disputando espaço com neons da Disney Store ou de outras lojas vendendo bugingangas. Hoje em dia, se preciso ir para aquelas bandas, prefiro um bom passeio pela Avenue de Friedland, pela Avenue Hoche ou até mesmo pela Avenue de Wagram. A mesma decepção ocorreu quando retornei à Oxford Street, em Londres, após anos de ausência dos meus pés em suas calçadas (essa rua ainda me pareceu pior, pois é mais estreita, inclusive nas calçadas, e é frequentada por um formigueiro de gente entrando e saindo daquelas lojas de departamento – PAVOR!), passeie pela Piccadilly, pela Regent Street ou pela Sloane Street, se quer ver comércio e aproveite para comprar uma coisa boa, ao invés de 50 porcarias, que a maioria adquire em lojas de departamento mais acessíveis. Igual vontade de vomitar também me foi gerada, quando conheci o Kufürstendamm, em Berlim (AMO Berlim, mas a rua me lembrou uma versão alemã da Rua Voluntários da Pátria ou da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, nada contra essas ruas, mas não são lugares necessariamente bonitos ou especialmente interessantes para alguém que não é local).

Ao contrário de seus pares do oeste, o Nevsky Prospekt, apesar de ser uma rua de comércio e de ser frequentada por muita gente, ela ainda guarda o seu charme. Não sei se a política urbanística de São Petersburgo não permite a poluição visual (se bem que fios de bonde e de eletricidade têm o dom da ubiquidade na região), ou se o fato da Rússia não pertencer à Comunidade Europeia, nem ser próxima dos EUA, fez com que esse tipo de mazela capitalista ainda não a tenha plenamente atingido. Existem sim lojas de marcas, também se encontra na região a principal loja de departamentos chique (e vazia) da cidade, a Passage, e tem também o seu lado rua Uruguaiana, nas imediações do mercado Gostiny Dvor , ressalvadas as devidas proporções (por sinal, as lojas laterais desse mercado são mais baratas do que as que se situam na sua frente). Mas a via é linda, bem conservada, frequentada por todo tipo de gente, mas ainda continua sendo uma rua indicativa do país, sem ter se tornado um lugar sem personalidade como as outras avenidas que citei. Infelizmente, não tiramos muitas fotos, porque é complicado parar numa via movimentada e ficar enquadrando uma máquina para fotografar, atrapalhando passantes…

Edifício Singer - Nevsky Prospekt - esquina com o canal Griboyedova

Edifício Singer – Nevsky Prospekt – esquina com o canal Gribodoyeva

Catedral Nossa Senhora de Kazan - São Petersburgo

Catedral Nossa Senhora de Kazan – Nevsky Prospekt – São Petersburgo

Eliseyev Emporium -  Nevsky Prospekt esquina com Malaya Sadovaya ulitsa

Eliseyev Emporium – Nevsky Prospekt esquina com Malaya Sadovaya ulitsa

Estátua da Imperatriz Catarina II, a Grande - Praça Ostrovskogo - Teatro Aleksandrovsky ao fundo - Nevsky Prospekt

Estátua da Imperatriz Catarina II, a Grande – Praça Ostrovskogo – Teatro Aleksandrovsky ao fundo – Nevsky Prospekt

No Edifício Singer, funciona a Dom Knigi (Дом книги), que, em russo, significa Casa dos Livros (casa é dom e kniga é livro, no idioma de Púchkin). É a principal livraria da cidade, que tem filial também em Moscou, arrependi-me de não ter procurado um dicionário português-russo. Piège à touristes numéro un da viagem: Café Singer. Paramos para tomar um cafezinho e comer uma besteirinha porque estávamos verdes de fome e aproveitamos para conhecer a versão petersburguense do Café de Flore, já que era um reduto de intelectuais nos tempos áureos. Bom, a comida é boa, ok, nada demais, cara, mas não extorsiva, serviço muito lento e o lugar tem um sistema de aquecimento horroroso! Por mais que estivesse frio na rua (por volta de 7ºC a 10ºC), dentro do restaurante devia estar uns 26ºC, sendo que, com a roupa de frio e o sol que bate nas janelas de vidro, virava uma sauna, dava vontade de tirar a roupa e ficar pelado tomando um chazinho. 

O Empório Eliseyev fica dentro de um belíssimo edifício art nouveau. É uma espécie de Fauchon russo. Vende de tudo e de boa qualidade: chás, caviar, chocolates, azeites…, acabamos fazendo compras só na sucursal moscovita. O problema da loja de São Petersburgo era o calor de seu interior e um cheiro de pum que exalava lá de dentro (não quis investigar a origem) semelhante ao que a estação de metrô Champs Elysées-Clemenceau cheirava nos anos 80, durante o inverno parisiense. Por sinal, esses problemas de chauffage lembram o de ar condicionado no Rio, nos dias de inverno que são acometidos pelos veranicos e fazem um calor horroroso, quando chega a noite, os estabelecimentos não diminuem a potência do ar-condicionado e fica desagradavelmente frio, o inverso ocorre na Rússia.

Ainda, nas imediações do Nevsky Prospekt, encontram-se as ruas de comércio sofisticado, como a Bolshaya Konnyushenaya ulitsa e a Malaya Konnyushennaya ulitsa. Na primeira, está situada a chique e também vazia loja de departamentos DLT e foi também nessa rua que presenciamos um dos abusos praticados pelos chamados “novos russos”: um carinha resolveu parar o carro no meio da rua – uma Mercedez Benz tinindo de nova -, trancou as portas e entrou na DLT para fazer sei lá o quê, pouco se importando com o trânsito!

Malaya Konnyushennaya ulitsa - São Petersburgo

Malaya Konnyushennaya ulitsa – São Petersburgo

E o post ficou gigante, comme d’habitude… Mau sapão!

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Peterhof – a versão do czar Pedro I, o Grande, para o Palácio de Versailles

Dando um tempo nos posts sobre São Petersburgo (que ainda não acabaram) resolvi escrever um pouco sobre a day trip que fizemos para o palácio construído pelo czar Pedro I, o Grande, nos arredores de sua capital imperial, o chamado Palácio de Peterhof (Петерго́ф) ou de Petrodvorets (Петродворец).

Anos antes de sonhar com a possibilidade de concretizar uma viagem à Rússia, nas minhas “andanças” pela internet, sempre via fotos desse palácio e ficava entusiasmado. Quem me conhece, sabe que eu tenho como hobby a História do século XVIII, sobretudo na França (além de um interesse por qualquer coisa relacionada ao Império Otomano e à Turquia), então, conhecer os palácios de São Petersburgo e de seus environs (principalmente o Peterhof e o Palácio de Catarina) viraram praticamente um objetivo de vida.

Eu sempre digo que gostaria de ter nascido no século XVIII. Óbvio que o ideal seria ter pertencido à nobreza, mas juro que, pelo menos em tese, não me incomodaria de ser um valete ou até mesmo o empregado que esvaziava as águas sujas de algum nobre não falido na corte na França (na Rússia, tenho minhas dúvidas, por conta do inverno horroroso, mas posso mudar de ideia), mesmo que tivesse perdido a minha cabeça durante “la terreur”.

Sonhos se realizam, ainda bem! Só que eu arrumei mais uma fonte inesgotável de interesses: estudar o século XVIII na Rússia. O que gera um problema, pois as nossas livrarias são escassas nos títulos e nem tudo dá para estudar em biblioteca, até porque as melhores só permitem consultas in loco.

Peterhof - Jardim Inferior - Grande Cascata

Peterhof – Palácio Principal – Jardim Inferior – Grande Cascata

Peterhof - Jardim Inferior - Grande Cascata

Peterhof – Palácio Principal – Jardim Inferior – Grande Cascata – Fonte do Sansão

Peterhof - Palácio Principal

Peterhof – Palácio Principal

Senta, que lá vem a história… A construção de Peterhof remonta ao ano de 1714, quando o Imperador Pedro I, o Grande, entendeu por bem mandar edificar uma residência de verão, compatível com a nova capital do Império Russo. Assim como São Petersburgo, a grande inspiração para o palácio foi o mar e a admiração que o Imperador possuía pela Marinha, oriunda dos tempos em que passou na Holanda.

Um dos motivos que levaram o czar a escolher o local para a construção da cidade de São Petersburgo foi a sua proximidade com o Golfo da Finlândia, transformando-a num porto acessível durante todo o ano, mesmo nos meses de rigoroso inverno, já que o Mar Báltico não congela durante o frio.

De mais a mais, em frente a São Petersburgo existe a ilha de Kronstadt, onde o czar mandou construir uma fortaleza para a defesa da cidade. O local em que se encontra o Palácio de Peterhof era utilizado pelo Imperador como um relais, uma parada de descanso, quando ele ia visitar os canteiros de obra de Kronstadt. Encantado com o terreno, ele resolveu mandar construir a sua “casa de veraneio”. Veja-se, então, que Peterhof, um dia, foi uma espécie de Iguabinha ou de Praia Grande para a corte imperial… rsrsrsrsrsrs.

Brincadeiras à parte, o primeiro castelo construído foi o de Monplaisir, justamente à beira do Golfo da Finlândia. Este “castelo”, vamos assim dizer, pois não é enorme e é constituído de um andar só, foi edificado no estilo holandês segundo esboços desenhados pelo próprio Pedro, I, o Grande. Aparentemente, o prédio não tem aquecimento, então ele só abre no verão. É o “sobradinho” que vemos ao fundo na foto abaixo. Em seus jardins, se encontram a Fonte do Sol e a Fonte “O Feixe” (fotos abaixo):

Castelo de Monplaisir - vista do jardim - Peterhof

Castelo de Monplaisir – vista do jardim – Peterhof

Fonte do Sol - Castelo de Monplaisir - Peterhof

Fonte do Sol – Castelo de Monplaisir – Peterhof

Fonte "O Feixe" - Castelo de Monplaisir - Peterhof

Fonte “O Feixe” – Castelo de Monplaisir – Peterhof

Um dos objetivos do czar com a edificação desta residência palaciana era a de competir com o Palácio de Versailles em termos de grandeza e de beleza, tanto, que houve um investimento maciço na decoração dos jardins e das fontes que o guarnecem, além do uso de materiais dourados à folha de ouro. Houve sucesso do Imperador em rivalizar com Versailles em relação à beleza. Realmente, neste quesito, Peterhof, não fica devendo em nada ao magnífico palais do Louis XIV! Contudo, a residência czarista perde em tamanho para o seu rival francês, até porque o magnífico castelo nos arredores de Paris, se não me engano, é a maior residência real da Europa.

Os arquitetos encarregados da edificação do palácio foram Johann Braunstein, Jean-Baptiste Le Blond e Niccolo Michetti, que utilizaram desenhos e rascunhos de autoria do próprio czar.

Peterhof - Jardim Inferior - Grande Canteiro

Peterhof – Jardim Inferior – Fonte do Sansão

Canal Marítimo - Palácio Principal (ao fundo) - Peterhof

Canal Marítimo – Palácio Principal (ao fundo) – Peterhof

Peterhof - Vista do Palácio Principal - para a Fonte de Sansão e o Canal Marítimo

Peterhof – Vista do Palácio Principal para a Fonte de Sansão e o Canal Marítimo

Escultura lateral - Fonte do Sansão - Jardim Inferior - Peterhof

Escultura lateral – Fonte do Sansão – Jardim Inferior – Peterhof

Fonte de Sansão - Vista lateral - Peterhof

Fonte de Sansão – Vista lateral – Peterhof

Peterhof Palácio Principal - Jardim Inferior - Grande Cascata

Peterhof Palácio Principal – Jardim Inferior – Grande Cascata

Um dado interessante que a guia nos relatou, foi que as esculturas que guarnecem a Grande Cascata e a Fonte de Sansão foram originalmente feitas de madeira pintada à folha de ouro. Obviamente que a utilização da madeira, por mais barata que fosse, não deu muito certo… Posteriormente, as esculturas foram confeccionadas em bronze e novamente pintadas à la feuille d’or.

Outra curiosidade diz respeito ao funcionamento das fontes. Vocês se lembram da aula de física, no segundo grau, que abordou a Teoria dos Vasos Comunicantes? Pois é… Nenhuma das fontes é movida por qualquer bomba ou energia artificial. Elas são alimentadas cada uma em razão do desnível do terreno, utilizando a força da gravidade. Ou seja, até a megalomania do imperador acabou sendo eco friendly. Óbvio que o sistema pode ser inteiro desligado, de forma a não danificar os encanamento e as fontes durante o rigoroso inverno russo.

Convém notar, também, a existência das chamadas “fontes surpresas”. Explicando: são fontes aparentemente “invisíveis” aos passantes e que são sub-repticiamente acionadas, dando um susto – e um bom banho – em quem passar por elas distraído. Atualmente, a graça e loucura dos “malucos” de plantão é de ficar esperando a fonte abrir e correr pelo meio dela se ensopando (detalhe: a temperatura deveria beirar uns 5ºC, não se enganem com o dia ensolarado). Vejam só:

Caminho de Água - fonte surpresa - Peterhof

Caminho de Água – fonte surpresa – Peterhof

Caminho de Água - fonte surpresa - Peterhof

Caminho de Água – fonte surpresa – Peterhof

O Grande Carvalho - Fonte Surpresa - Peterhof

O Grande Carvalho – Fonte Surpresa – Peterhof

Creio que para muitas das pessoas ali, este deva ser o único banho em dias, quiçá, semanas… Eca!

O parque também possui uma linda capela, que aparentemente só abre no verão ou em dias de concerto. No guia do palácio que eu comprei, ela parece ser magnífica, com seu interior ricamente decorado.

Capela - Peterhof

Capela – Peterhof

A parte interna do palácio é absurdamente suntuosa (fotos proibidas, infelizmente). Contrariamente ao que ocorreu com os castelos franceses no pós-Revolução, os bolcheviques ao tomarem o poder em 1917 declararam as antigas residências palacianas da nobreza como museus e consequente propriedade do povo. Desta forma, a decoração, os móveis, os adornos e os enfeites foram todos catalogados e preservados. Ao passo que na França, os revolucionários venderam os pertences dos nobres em leilões e a preço de banana. Por isso que se vê costumeiramente palácios franceses vazios de móveis. A França tem feito um trabalho bastante interessante para a recuperação do mobiliário que guarnecia os imóveis de sua nobreza deposta, que inclui o pagamento de impostos de transmissão através de dação em pagamento com objetos que pertenceram aos nobres e que estão em poder de particulares, a prioridade absoluta do governo na aquisição de objetos franceses em leilões e vendas promovidos dentro do país… Mas isso fica para outro(s) post(s).

Por fim, antes de entrar nos aspectos práticos da visita, acho conveniente informar que o Palácio de Peterhof foi praticamente todo destruído durante a II Guerra Mundial, quando do cerco de Leningrado. Para não dizer que nada ficou de pé, apenas o escritório particular de Pedro I, o Grande, saiu menos chamuscado.

Peterhof - II Guerra Mundial - Chandogin: Dystrophiker, Leningrad, Dezember 1942 (© Deutsch-Russisches Museum Berlin-Karlshorst e.V.) - imagem retirada do site http://www.wartist.org/blog/?p=742

Peterhof – II Guerra Mundial – Chandogin: Dystrophiker, Leningrad, Dezember 1942 (© Deutsch-Russisches Museum Berlin-Karlshorst e.V.) – imagem retirada do site http://www.wartist.org/blog/?p=742

O trabalho de restauração dos russos, realizado por determinação do Stalin, é algo primoroso! Da mesma forma que comentei nesse post que havia ficado um pouco decepcionado com a reconstrução da Casa dos Cabeças Negras, em Riga, o mesmo não se pode dizer dos palácios imperiais russos que foram arrasados na última Grande Guerra. O trabalho de restauração foi (e ainda está sendo) irretocável! Graças à preocupação que os soviéticos tiveram em catalogar e em fotografar o interior e o exterior dos palácios (desgraça parecida sucedeu ao Palácio da Catarina, em Tsarskoe Selo, também na II Guerra), foi possível a sua reconstrução fidedigna. É bem verdade que os móveis e obras de arte foram imediatamente retirados dos museus quando da declaração de guerra à Alemanha; mas ornamentos, decoração de paredes, de teto e do chão, tudo isto foi refeito na maior perfeição, tanto que o visitante não acredita que o palácio não é “original”. Inclusive as estátuas que guarnecem as fontes, todas foram roubadas pelos nazistas, e todas foram refeitas à semelhança das que anteriormente existiam. Eu fiquei encantado e tiro o meu chapéu para os artesãos russos. Nunca vi nada igual nas minhas andanças por aí!

Peterhof na prática

link do subtítulo dá direto acesso ao site do museu. Se vocês forem fazer a viagem independente, sem guia, sugiro que acessem a versão russa do site e façam a tradução pelo Google Chrome, vai sair truncado, mas pelo menos vocês terão a certeza das informações sobre o museu (a versão em inglês não é tão atualizada). O turismo na Rússia não é excepcionalmente bem orientado para o visitante estrangeiro (alguma semelhança com o Brasil?!), pois tudo é voltado mais para o turismo interno (em nosso país, nem isso).

O palácio fica situado numa abastada cidade pertencente à região metropolitana de São Petersburgo, lugar habitado atualmente por milionários. Nas suas imediações está situado, inclusive o Palácio Konstantinovsky (Strelna) que, em sua origem, também foi concebido para o Pedro I, o Grande, pelo arquiteto francês Jean-Baptiste Le Blond. Atualmente ele é a residência do Presidente da Rússia quando em São Petersburgo. O palácio é aberto à visitação quando o entourage presidencial não está na cidade.

Aproveito para prevenir aos interessados, que, após o Hermitage, este é o museu mais visitado da Rússia, e, por óbvio, muito cheio, principalmente nos fins-de-semana. Existe, ainda, uma limitação de ingressos para cada dia. Por conta desse aspecto, apesar de não estar em alta temporada no dia em que visitamos (mas estava bem cheio), nós resolvemos comprar o passeio já aqui do Brasil. A agência Tchayka reservou o passeio para nós com a excelente guia francófila, Marie Krasnitskaya (infelizmente, ela só faz passeios em francês, se for o caso, vocês podem solicitá-la à agência). Ficou mais caro, mas fomos de carro, paramos na porta, entramos pela entrada dos guias, sem fila e sem amolação. Essa decisão vai depender do quanto é importante para vocês conhecerem o palácio. Para mim, estava fora de questão deixar de visitá-lo. Vocês podem tentar comprar diretamente com uma agência russa, nós achamos arriscado, pois nos informaram que os ingressos seriam adquiridos na hora da visita (não sei se eles têm alguma garantia nesse sentido). Nós não nos arriscamos e não nos arrependemos, até porque as conversas com a Marie foram um toque especial em toda a viagem. Ela nos contou uma série de fatos sobre o dia-a-dia na Rússia, impressões que podem ser mais interessantes do que o passeio em si, fora que ela tem um ótimo francês e usa algumas expressões engraçadas…

O chato do passeio com guia é que você fica limitado a um horário pré-estipulado. Não fizemos nada correndo, mas, por exemplo, não deu para passear nos jardins superiores… Fica para a próxima vez!

Outra coisa, já escutei por aí que só vale à pena conhecer os jardins do Peterhof, que o interior do Palácio da Catarina é mais bonito. Balela! Os dois têm interiores lindos. Fazer esse passeio para não conhecer o museu por dentro, na minha singela opinião, é um decisão tristemente equivocada!

Se vocês forem fazer o tour de forma independente, existem 3 opções de transporte ao palácio segundo o Lonely Planet: 1) de barco, com saídas em frente ao Hermitage, no cais do rio Neva, e leva vocês diretamente até o palácio; 2) de Marshrutka (uma espécie de micro-ônibus), as de número 300 e 424, saem da estação de metrô Avtvovo (o metrô de São Petersburgo tem inscrições no alfabeto latino), bastando pedir para o condutor deixar você perto Petergof dvorets, se arriscando ao chauffeur não entender patavina da sua pronúncia (leve um papelzinho escrito, peça ajuda ao seu hotel); 3) ou de trem, partindo da Estação Báltica de São Petersburgo e descendo na estação Novy Petergof (Новый Петергоф); de lá até o palácio é uma caminhada de 20 minutos.

A Camila Navarro foi de barca e, pelo jeito, aprovou o passeio. Na verdade, era o que eu queria ter feito, mas o trajeto de barco só é disponibilizado no verãozão.

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Impressões sobre a URSS

Em princípio, havia programado escrever este post antes de começar o relato sobre a Rússia, mas, acabei adiando. Fiquei na dúvida se realmente valia à pena postar, pois a questão refoge um pouco ao tema do blog, além de que existe um ligeiro receio de ser mal interpretado (o que no fundo é uma grande bobagem, pois e daí se o for, né?).

Para quem viveu nos países ocidentais nos tempos da Guerra Fria, geralmente a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) era vista com medo e absoluta desconfiança. Os comunistas eram acusados das mais diversas atrocidades (acusações estas várias vezes pertinentes), mas como sempre fomos insuflados por uma mídia bastante parcial e também por termos sempre sido uma área de absoluta influência dos Estados Unidos, na minha singela opinião, toda e qualquer opinião emitida sobre a antiga URSS deve ser peneirada.

Poster fotografado do livro "Russian Revolutionary Posters", do David King

Poster fotografado do livro “Russian Revolutionary Posters”, do David King

Por essas e outras que um dos grandes interesses que motivaram a viagem à Rússia foi justamente verificar pessoalmente o legado bom e ruim que anos de regime socialista deixaram nas sociedades.

Em primeiro lugar, é conveniente esclarecer que, nas Repúblicas Bálticas, o sentimento russofóbico é bastante difundido. Claro que ele se explica, pois não é nenhuma grande felicitação ter sua soberania e autodeterminação massacradas por um período de mais de 50 anos em que permaneceram sob o julgo soviético.

Poster fotografado do livro "Russian Revolutionary Posters", do David King

Poster fotografado do livro “Russian Revolutionary Posters”, do David King

As consequências deste período são bastante evidentes, para se ter uma ideia, Riga, a capital da Letônia, possui até hoje cerca de 40% de sua população composta por pessoas de etnia russa, que se recusam a falar o letão, o idioma oficial. Na Lituânia, que eu não visitei, aparentemente, é proibida a publicação de qualquer documento, cartaz, letreiro, livro… em língua russa. Riga, apesar de ter sido durante muitos anos a terceira maior cidade do Império Russo – acredito também que da URSS – não foi realizada a construção do metrô, como seria normal, pois, para o andamento do projeto, seria necessário o deslocamento de mais mão-de-obra russa para lá, o que não era do agrado dos letões… Os exemplos são vários.

Depois da queda da URSS, esses países reclamaram vultosas indenizações em face da Rússia. As negociações ainda estão em aberto, como se pode verificar pelo teor da reportagem extraída do site Voz da Rússia.

Ocorre que, pelo conteúdo da reportagem acima citada, o processo de russificação da área não foi realizado por meio de conquistas (não irei retificar o meu outro post porque a matéria do jornal russo pode também ser parcial). Aparentemente as terras onde estão situados os Países Bálticos foram compradas pelo Império Russo. Mais uma vez, isso, em princípio, explica, mas não justifica a opressão de um povo por outro… Mas fica difícil de se ter uma visão justa da situação, na minha opinião.

De qualquer maneira, a russofobia desses países foi também incitada pelo Ocidente. Quando do desmantelamento da URSS, a Bielorrússia e os Países Bálticos eram as repúblicas soviéticas que estavam em melhor condição econômica. A Bielorrússia não se afastou da Rússia e hoje em dia é a única ditadura que ainda existe dentro do continente europeu, ao passo que os Países Bálticos receberam enorme ajuda financeira do Ocidente, tendo, inclusive, ingressado rapidamente na Comunidade Europeia.

Não há necessidade de grandes elucubrações para perceber que a equação composta por pequena área territorial, população diminuta bastante concentrada nas capitais (Vilnius, Tallinn e Riga) e ajuda financeira do Ocidente, que tinha um enorme interesse em demonstrar para o mundo o fracasso do Comunismo, fez com que esses países se desenvolvessem mais rápido. Tenho para mim que a situação seria bastante outra, se o Ocidente não tivesse metido o seu bedelho. Talvez estes países, hoje, estivessem vivenciando uma crise tal qual ocorre na Ucrânia (a título de curiosidade, a federação ucraniana como existe atualmente foi composta de forma artificial, sendo que vários territórios que hoje a integram eram parte da Rússia).

Poster fotografado do livro "Russian Revolutionary Posters", do David King

Poster fotografado do livro “Russian Revolutionary Posters”, do David King

Não é mentira, também, que não era possível viajar para fora dos limites da URSS (nem mesmo para os países da Cortina de Ferro), havia uma crise de abastecimento, em vários locais havia fome (a fome que assolou a Ucrânia em 1932 é considerada um dos maiores crimes cometidos pelo camarada Stalin contra a Humanidade), pessoas sumiam no meio da noite e eram postas em prisões sem qualquer obediência ao devido processo legal…

Por outro lado, como nos foi esclarecido por uma de nossas guias em São Petersburgo, as pessoas tinham acesso à moradia (o Estado dava uma casa ou um apartamento, que, caso não satisfizesse às necessidades da família, a residência poderia ser trocada por outra), havia garantia de emprego e de benefícios trabalhistas, havia vaga para todos no sistema de saúde (apesar de que a ajuda da família para tratar dos doentes internados era mais do que bem-vinda), havia acesso à educação de altíssima qualidade… Hoje em dia, na Rússia, os salários médios giram em torno de 6 mil rublos (cerca de R$ 300,00), sendo que um aluguel de um apartamento pequeno em São Petersburgo gira em torno de 4 mil rublos, a maioria das vagas nas boas universidades tem cartas marcadas, não existe qualquer seguro desemprego e a saúde é bastante precária…

Poster fotografado do livro "Russian Revolutionary Posters", do David King

Poster fotografado do livro “Russian Revolutionary Posters”, do David King

A nossa guia em Moscou, uma senhora mais velha, foi enfática: de forma alguma se deve voltar ao regime comunista, mas que a realidade do atual capitalismo russo, capitaneada pelo Putin e pelo Medvedev é igualmente horrorosa.

Qual o caminho certo? Não sei dizer. Só sei que não acho correto esse modelo neoliberal que o mundo insiste em seguir… Que tal o meio-termo?

Por fim, informo que as fotos que ilustram este post provavelmente não têm nada a ver com o conteúdo do meu texto, são meramente ilustrativas.

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São Petersburgo – Suas famosas “Catedrais” – Parte III

Após uns dias de recesso blogueiro, estou de volta com a saga cristã ortodoxa…

Comme par hasard, antes de entrar no tema do post propriamente dito, farei minha breve dissertação. Hoje, darei uma pequena explicação sobre a estrutura interna das igrejas ortodoxas.

Contrariamente ao que acontece no Cristianismo Católico e no Cristianismo Protestante, durante as missas nas Igrejas Ortodoxas, os fiéis permanecem o tempo todo de pé ou de joelhos (há um provérbio proclamando que, quanto maior o seu pecado, maior o tempo em que você passa de joelhos rezando, enfim…).

Quanto à disposição da igreja, normalmente, elas são construídas no formato daquela cruz simétrica (a cruz grega). O altar fica atrás da iconostase (uma parede contendo imagens pintadas de santos e de passagens da Bíblia; existe uma ordem na apresentação da iconostase, segundo a hierarquia dos santos e a importância das passagens bíblicas retratadas – confesso que não consigo lembrar – mas que é relevante, por exemplo, para se verificar se uma iconostase é original, se pertence a uma determinada igreja, se é uma réplica…). Esta parede que protege o altar possui três portas, a Porta Real, que fica no meio, pela qual só podem passar os membros do clero e duas portas laterais. As portas só ficam abertas durante os serviços religiosos, pois a parte protegida da igreja representa o Céu, a que os fiéis não têm acesso (pelo menos em vida), mas que podem vislumbrar; a nave seria a vida terrena e a parede oposta ao altar o inferno (nas igrejas mais antigas, há belíssimas pinturas do Juízo Final), simbolizando que a vida fora da igreja seria um caminho ao pecado.

Nas igrejas de São Petersburgo, como já esclarecido, essa disposição não é seguida tão à risca.

Catedral de Nossa Senhora de Kazan

O czar Paulo I – que foi uma das pessoas mais feias que já pisou na face da Terra e que era filho da Imperatriz Catarina II, a Grande – comissionou a construção desta catedral nos primeiros anos do século XIX.

Retrato do czar Paulo I por Stepan Schchkin - Museu Hermitage - http://www.hermitagemuseum.org/html_En/03/hm3_6_5a.html

Retrato do czar Paulo I por Stepan Schchkin – Museu Hermitage – http://www.hermitagemuseum.org/html_En/03/hm3_6_5a.html

A igreja foi construída na Nevsky Prospekt, no início do século XIX, tendo como modelo a Basílica de São Pedro do Vaticano, fato este que desagradou bastante a cúpula da Igreja Ortodoxa. Acredita-se que a ideia era a de construir uma outro templo igual do outro lado da avenida de forma a haver uma harmoniosa simetria na principal via de São Petersburgo (mais ou menos como ocorre em Berlin, na praça Gendarmemarkt, com a Catedral Alemã e a Catedral Francesa, que são iguais, e foram construídas uma em frente à outra).

Nessa catedral encontram-se os restos mortais do general Kutuzov, responsável pela derrota das tropas francesas de Napoleão I, na Grande Guerra Patriótica.

Com a ascensão do Comunismo, a Catedral foi fechada e, posteriormente, transformada no Museu da História da Religião e do Ateísmo, tendo seus serviços retornado com a queda da URSS. Hoje em dia é a principal catedral de São Petersburgo. Logo, fotos no seu interior são estritamente proibidas.

O interior da igreja é todo muito escuro e sóbrio e, como ela foi construída no formato da cruz católica, sua nave vazia dá uma impressão de imensidão incrível. As colunas são feitas em mármore da Karélia, mas diferentemente da Catedral de Santo Isaac, não foram feitas em um único bloco.

Catedral Nossa Senhora de Kazan - São Petersburgo

Catedral Nossa Senhora de Kazan – São Petersburgo

Catedral Nossa Senhora de Kazan - São Petersburgo - vista lateral do Canal Griboyedova

Catedral Nossa Senhora de Kazan – São Petersburgo – vista lateral do Canal Griboyedova

Catedral Nossa Senhora de Kazan - São Petersburgo

Catedral Nossa Senhora de Kazan – São Petersburgo

Catedral e Convento de Smolny

A construção deste complexo religioso foi determinada pela Imperatriz Elizabeth Petrovna, filha do czar Pedro I, o Grande, ao arquiteto Francesco Bartolomeo Rastrelli, no século XVIII. O intuito da imperatriz era o de tornar-se freira, quando fora destituída do seu direito ao trono pelo czar Ivan VI (não é o “Terrível”, este é o Ivan IV, que não era da dinastia Romanov). Todavia, o Ivan VI foi vítima de um golpe de estado, que restituiu à Elizabeth Petrovna, seu direito a governar o Império Russo. Sendo assim, ela jamais residiu entre as paredes do convento.

Atualmente, a igreja funciona como uma sala de concertos e os prédios em que funcionava o convento abrigam repartições públicas diversas e parte da Universidade Estadual de São Petersburgo. Pena que não havia nenhuma apresentação na igreja quando estivemos na cidade, a guia nos disse que o seu interior é todo branco. Acredito que a falta de decoração interna da igreja tenha sido causada pela morte da Imperatriz Elizabeth com a ascensão de Catarina II, a Grande, que não se interessou em concluir a obra.

Nós fomos acompanhados na visita destas Catedrais pela nossa guia, Anna Rudaya, e estávamos de carro. A Catederal de Smolny fica um pouco longe do centro de São Petersburgo, seu acesso é melhor de carro ou de taxi (sempre é possível caminhar, mas haja perna!).

Catedral e Convento de Smolny - São Petersburgo

Catedral e Convento de Smolny – São Petersburgo

Catedral e Convento de Smolny - São Petersburgo

Catedral e Convento de Smolny – São Petersburgo

Catedral de Smolny - São Petersburgo

Catedral de Smolny – São Petersburgo

Catedral de Smolny - São Petersburgo

Catedral de Smolny – São Petersburgo

Eu achei esse lugar realmente bonito! A imagem aérea da Catedral e do Convento é beeeem legal! A igreja fica perto do prédio da DUMA (o Parlamento russo), que foi palco de boa parte das decisões que culminaram na Revolução de Outubro de 1917.

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São Petersburgo – Suas famosas “Catedrais” – Parte II

Confesso que não sou a pessoa mais versada sobre Cristianismo ou sobre qualquer assunto religioso, mas, ontem, ao assistir ao filme grego “Meteora”, do diretor Spiros Stathoupoulos – que se passa na belíssima região da Grécia de mesmo nome, com seus mosteiros antiquíssimos, no topo de formações rochosas, que possibilitam seu acesso apenas por corda ou por longuíssimas escadas, lugar lindo que conheci na infância – fiquei intrigado porque a personagem da monja era russa, mas se encontrava enclausurada num mosteiro grego. Sei que ambos os países seguem o Cristianismo Ortodoxo, mas achava que possuíam religiões distintas da mesma vertente. Pelo jeito não são.

Aparentemente, a chamada Igreja Ortodoxa do Leste (termo utilizado para diferenciá-la da Igreja Ortodoxa Oriental, cujos seguidores estão na Síria, no Líbano, em outras partes do Oriente Médio, na Etiópia, na Armênia), a principal religião de países como a Grécia, a Rússia, a Romênia, a Bulgária, a Sérvia…, possui liturgia mais ou menos uniforme, variando, apenas o idioma em qual é processado o sacerdócio (daí dizer Igreja Ortodoxa Russa, Grega etc.). Outra característica é a não existência de supremacia entre os bispos ao professar a palavra divina, ou seja, não há uma hierarquia entre eles, tal qual existe no Cristianismo Católico, em que a palavra papal é inconteste. Apenas para questões de cunho administrativo existe a autoridade do Patriarca, que tem sua esfera de influência regionalizada, em área que pode corresponder, ou não, a um país; por exemplo, o Patriarca da Rússia fica em Moscou (apesar da sede do Patriarcado, em tese, ser em Sergiev Possad), já o que exerce o comando administrativo na Grécia, em Chipre e, creio eu, sobre regiões da Turquia, fica sediado em Istambul (antiga Constantinopla, que foi capital do Império Romano, já sob os auspícios do Cristianismo, convém lembrar).

Nesse aspecto, pode-se traçar um paralelo entre o Catolicismo e o Islamismo Xiita (ambas as religiões possuem uma autoridade única em termos de fé, o Papa e o Aiatolá, respectivamente) e o Cristianismo Ortodoxo com o Islamismo Sunita, em que esta supremacia não existe. As religiões são tão parecidas, não entendo o motivo para se digladiarem!

Ainda, antes de entrar no post propriamente dito, eu esqueci de dizer que o passeio pelas catedrais foi feito junto com a guia Anna Rudaya (clicando no nome dela, dá acesso diretamente ao site de guias de uma agência que ela mantém com uma amiga). Eu a descobri, por acaso, pesquisando na internet a respeito de guias que falam francês na cidade. Ressalto que a Anna é fluente em francês e em inglês, tendo estudado na França e nos Estados Unidos, atualmente, ela está aprendendo a falar italiano. Além de conhecer muito bem a cidade, o nível cultural dela é surpreendente!

A guia que nos foi recomendada pela agência brasileira Tchayka, que nos usamos para os passeios fora de São Petersburgo e que também nos acompanhou à estação de trem, foi igualmente fenomenal (falarei dela em outro post). Oportunamente, também esclarecerei o  motivo de nossa preferência por guias francófilos.

Igreja da Ressurreição de Cristo (Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado)

De arquitetura inspirada na Catedral de São Basílio, em Moscou, a Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado é considerada, pela maioria das pessoas, como a principal atração de São Petersburgo. E ela é verdadeiramente DESLUMBRANTE!

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - fachada Sul - Canal Griboyedova, São Petersburgo

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – fachada Sul – Canal Griboyedova, São Petersburgo

Igreja do São Salvador Sobre o Sangue Derramado - Fachada Sul - São Petersburgo

Igreja do São Salvador Sobre o Sangue Derramado – Fachada Sul – São Petersburgo

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - Fachada Sul (detalhe) - São Petersburgo

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – Fachada Sul (detalhe) – São Petersburgo

Igreja do São Salvador Sobre o Sangue Derramado - Fachada Norte - São Petersburgo

Igreja do São Salvador Sobre o Sangue Derramado – Fachada Norte – São Petersburgo

A igreja é tão escandalosamente bonita, que tiramos várias fotografias… todas iguais! Com o nefasto advento da máquina fotográfica digital e de celulares com câmera, as pessoas ficam num frenesi de cliques e flashes verdadeiramente insuportável e acabam não apreciando o lugar. A probabilidade de elas reverem essas fotos é muito pequena, mas a enxurrada de cliques é incessante. Óbvio que fazemos o nosso mea culpa e admitimos que também tiramos fotografias excessivas, mas ainda assim, muito menos do que a média dos turistas. Fica a dica: aproveitem o lugar com os olhos e não atrás de uma lente e do diafragma de uma maquineta…

Fiquei na dúvida se escrevia ou não um pouco da história do local, isto porque em todo e qualquer blog e em todos os guias que você ler vai estar dita a mesma coisa: o seu local de construção foi onde o czar Alexandre II sofreu um atentado, em 1881. Também constará em tudo quanto é lugar que, após a ascensão dos bolcheviques ao poder, cogitou-se na sua demolição e, igualmente, que ela serviu de necrotério durante o cerco de Leningrado, de aproximadamente quatro anos, na Segunda Guerra Mundial, sendo posteriormente utilizada como depósito de legumes e depois fechada, tendo permanecido em reforma por mais de 20 anos…

O que é pouco informado é que o czar Alexandre II, chamado de o “bom czar”, foi o responsável pela extinção do regime de servidão feudal que existia na Rússia até a segunda metade do século XIX, por isso, ele sofreu um atentado terrorista que culminou com a sua morte. Ou seja, os trabalhadores das terras eram presos a ela, não havendo grandes liberdades de ir e vir, além de uma série de outras restrições a que estavam submetidos, que já haviam sido abolidas há muito tempo nos países da Europa Ocidental. O documento original que decretou a extinção da servidão no Império Russo está exposto no Museu de História Russo, em Moscou. Apenas a título de curiosidade, os castigos físicos a empregados domésticos e servidores rurais eram usuais na Rússia até a Revolução de Outubro, uma humilhação sem fim. A vida dos mujiques devia ser um horror, mas não tão diferente do que ocorre hoje em dia em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, com os boias-frias e com os bolivianos e haitianos empregados na indústria de confecção.

Ao invés de decorada com afrescos, o interior da igreja é inteirinho recoberto com mosaicos retratando a vida dos santos e passagens bíblicas, em tons de azul. A sua inspiração na arquitetura antiga russa é bastante evidente, tanto que seu estilo é nomeado Revival Russo. Apreciem as fotografias.

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Detalhe do mármore do chão - Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Detalhe do mármore do chão – Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Altar principal - Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Altar principal – Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Altar principal (detalhe) - Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Altar principal (detalhe) – Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Uma das portas do altar - Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Uma das portas do altar – Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Mosaico de uma das cúpulas - Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Mosaico da cúpula do altar principal – Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Cúpula principal - Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Cúpula principal – Igreja do São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

O lugar em que o czar sofreu o atentado também foi marcado. Nas missas ortodoxas, os fiéis permanecem de pé à exceção dos czares, que podem se sentar numa espécie de púlpito. Assim, no local do ataque, foi construído um nicho igual ao que se encontra em outras igrejas para o assento do imperador, dando a ideia de que o lugar do Alexandre II estaria preservado para sempre.

Local em que o czar Alexandre II sofreu o ato terrorista - Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado - São Petersburgo

Local em que o czar Alexandre II sofreu o ato terrorista – Igreja de São Salvador sobre o Sangue Derramado – São Petersburgo

Por fim, esclareço que esta igreja jamais foi consagrada, então, nunca funcionou como templo, mas apenas como museu. Pelo que a guia nos relatou, a Igreja Ortodoxa tem planos para a consagração da igreja, se vai acontecer, não sabemos.

Eu pretendia falar aqui também da Catedral de Nossa Senhora de Kazan e da Catedral de Smolny, mas, para variar, a postagem ficou enorme, então, deixo para outra ocasião.

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